PMs que mataram estudante de medicina em SP terão júri popular após versões conflitantes do crime
PMs que mataram estudante de medicina em SP terão júri popular

PMs que mataram estudante de medicina em SP terão júri popular após versões conflitantes do crime

A Justiça de São Paulo determinou que os policiais militares Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado, acusados de matar o estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, sejam levados a júri popular. A data do julgamento ainda será definida, mas a decisão representa um passo significativo no processo que já dura mais de um ano.

O crime que chocou São Paulo

O jovem estudante foi morto com um tiro à queima-roupa disparado no saguão do hotel em que estava hospedado, na Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, em novembro de 2024. A decisão judicial foi proferida no sábado (21) pela juíza Luiza Torggler Silva, da 4ª Vara do Júri, após análise detalhada das evidências.

Os policiais respondem em liberdade pelo crime de homicídio qualificado por motivo torpe e com recurso que dificulta a defesa da vítima. A qualificação do crime aumenta significativamente a pena prevista, demonstrando a gravidade das acusações.

Família exige justiça e prisão dos acusados

O pai do estudante, o médico Julio Cesar Acosta Navarro, disse que recebeu a decisão com alívio, mas criticou veementemente o fato de os acusados continuarem soltos — afastados apenas das atividades operacionais — mais de um ano após a morte do filho.

"Não sei o que estão esperando para expulsá-los. Até mesmo o governador prometeu nos dias seguintes à morte de meu filho, que puniria severamente [os policiais] e isso está documentado. Depois de 460 dias, a situação continua assim", desabafou o pai, demonstrando a frustração com a lentidão do processo.

Em nota oficial, a defesa da família informou que seguirá solicitando a decretação da prisão preventiva dos policiais e a exclusão deles da corporação. "A liberdade desses agentes representa um risco manifesto à ordem pública e uma afronta direta à memória de Marco Aurélio e à dor de sua família. Não descansaremos até que aguardem o veredito final atrás das grades", escreveram os advogados Pedro Medeiros Muniz e Nikolas Lima Pessoa Dias.

Relembrando os detalhes do caso

Marco Aurélio foi morto com um tiro à queima-roupa durante uma abordagem policial na madrugada de 20 de outubro de 2024, na Vila Mariana. A sequência de eventos começou quando o estudante deu um tapa no retrovisor de uma viatura que passava pela Rua Cubatão e correu para dentro de um hotel, onde estava hospedado com uma amiga.

No veículo estavam os PMs Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado. Após o incidente com o retrovisor, os policiais desceram da viatura e seguiram o estudante até o saguão do hotel. As imagens de segurança mostram claramente Guilherme apontando o revólver e gritando "você vai tomar", enquanto tenta puxar o jovem pelo braço.

Em seguida, Bruno chuta o estudante, que reage segurando o pé do policial — ele cai no chão. Logo depois, Guilherme atira à queima-roupa, acertando o abdômen do estudante. A vítima foi levada para o Hospital Ipiranga, mas não resistiu aos ferimentos. A unidade hospitalar estava superlotada e sem equipamento de tomografia, conforme consta na ficha de atendimento médico.

Versões conflitantes e pedidos de prisão

No boletim de ocorrência, os PMs afirmaram que o estudante resistiu à abordagem, "entrou em vias de fato com a equipe" e tentou pegar a arma de Bruno — alegações que, segundo as imagens de vídeo disponíveis, não correspondem à realidade dos fatos.

Apesar de três pedidos formais de prisão preventiva apresentados pela família da vítima, os policiais continuam respondendo ao processo em liberdade. A Universidade Anhembi Morumbi concedeu diploma póstumo ao estudante, reconhecendo sua trajetória acadêmica interrompida tragicamente.

O caso continua a gerar comoção pública e debates sobre abuso de autoridade, violência policial e a necessidade de reformas no sistema de segurança pública. A expectativa agora é pela definição da data do júri popular, que deverá analisar todas as evidências e determinar a responsabilidade dos acusados.