Polícia Civil conclui inquérito e indica PM por desaparecimento da família Aguiar no Rio Grande do Sul
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul finalizou e encaminhou ao Ministério Público o inquérito que investiga o desaparecimento da família Aguiar, ocorrido há mais de 80 dias. Mesmo sem a localização dos corpos, as autoridades afirmam ter reunido provas robustas para indiciar o principal suspeito, Cristiano Domingues Francisco, um policial militar, por uma série de crimes graves.
Crimes imputados e pena máxima
Cristiano é acusado de feminicídio, duplo homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, abandono de incapaz, falsidade ideológica, furto qualificado, fraude processual, falso testemunho e associação criminosa. A soma das penas para esses delitos pode alcançar até 102 anos de reclusão. A decisão sobre a denúncia ao Judiciário caberá ao Ministério Público.
Silvana de Aguiar, de 48 anos, e seus pais, Isail, 69 anos, e Dalmira Germann de Aguiar, 70 anos, desapareceram em janeiro. Silvana foi vista pela última vez no dia 24, enquanto os pais sumiram no dia 25. A polícia realizou uma coletiva de imprensa nesta sexta-feira (17) para detalhar a cronologia dos fatos e as evidências coletadas.
Cronologia e uso de tecnologia no crime
Os delegados responsáveis pelo caso acreditam que Silvana foi assassinada entre a noite e a madrugada de 24 de janeiro em sua residência. Imagens de câmeras de monitoramento capturaram movimentações suspeitas de veículos, incluindo um Volkswagen Fox vermelho e um Ford Ka branco, este último pertencente à vítima. A análise de conexões de wi-fi indicou que os celulares de Cristiano e Silvana estiveram ativos no local simultaneamente, reforçando a hipótese de que o crime ocorreu ali.
Um aspecto chave das investigações é o uso de inteligência artificial por parte do suspeito. Cristiano teria empregado IA para simular a voz de Silvana, atraindo assim seu pai, Isail, para a casa dela na tarde do dia 25. Posteriormente, a mesma técnica teria sido usada para acessar a residência dos pais, onde Dalmira também teria sido abordada. O casal não foi visto desde então.
O delegado Diego Traesel destacou a sofisticação do planejamento criminoso: "Foi um crime tão bem planejado. Percebemos que essa montagem teatral para a atração dos idosos foi criada dias antes do fato. Ele prepara um telefone para utilizar neste crime, e prepara o pós-crime também".
Outros indiciamentos e extensão das investigações
Além de Cristiano, outras cinco pessoas foram indiciadas: sua atual esposa, o irmão, a mãe, a sogra e um amigo. Eles são acusados de crimes como fraude processual, ocultação de cadáver, furto qualificado, falso testemunho e associação criminosa. Segundo o delegado Anderson Spier, "Não encontramos subsídios de que os demais envolvidos tenham participado antes dos crimes. A materialização da conduta deles foi no sentido de tentar isentar o Cristiano daquela suspeita que recaía sobre ele".
O inquérito, com impressionantes 20 mil páginas, inclui depoimentos, diligências, relatórios, extrações e quebras de sigilo, totalizando mais de 10TB de documentos. Foram apreendidos 16 celulares, 17 nuvens de e-mails, cinco DVRs, 13 pendrives, cinco computadores e quatro HDs. As operações resultaram em cinco prisões, 14 mandados de busca e apreensão e 37 quebras de sigilo.
A perícia confirmou recentemente que o sangue encontrado na casa de Silvana pertence a ela e ao pai, Isail. Spier enfatizou: "Eu sei que se criou esse mito de que sem a presença dos corpos não há materialidade, mas, na verdade, a gente já tem um vasto conteúdo que aponta no sentido de que a materialidade pode ser provada de forma indireta".
Motivações e posicionamento das defesas
A polícia aponta que a motivação do crime estaria ligada a uma disputa pela guarda do filho de Cristiano com Silvana, além de questões financeiras relacionadas ao patrimônio da família Aguiar. As defesas dos acusados aguardam acesso integral aos autos para se manifestar. A defesa de Cristiano afirmou que "aguarda o encaminhamento do inquérito, sendo que, pela finalização das investigações, deverá ter acesso amplo e irrestrito a todos os procedimentos cautelares". Já a defesa de Wagner Domingues Francisco, irmão do PM, destacou que as imputações são "meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório".
O caso segue sob análise do Ministério Público, que decidirá sobre a formalização da denúncia, enquanto a família Aguiar permanece desaparecida, deixando uma comunidade em alerta no Rio Grande do Sul.



