Júri absolve pai que chicoteou genro suspeito de agredir filha grávida na Bahia
Pai é absolvido por chicotear genro que agredia filha grávida

Júri popular absolve agricultor que chicoteou genro em defesa da filha grávida na Bahia

Um caso que chocou o interior da Bahia e expôs as fragilidades do sistema de proteção à mulher chegou a uma decisão judicial inesperada. Luiz Carlos da Silva, agricultor de 60 anos da região de Irecê, foi absolvido por um júri popular do crime de tentativa de homicídio após agredir seu genro, Charles Barreto Durães, com múltiplas chicotadas. O motivo do ataque, segundo o réu, foram as sucessivas agressões que sua filha Cristiana, que na época estava grávida, sofria nas mãos do marido.

Um caso que demorou anos para chegar à Justiça

O episódio violento ocorreu em 2015, mas apenas em novembro de 2025 o caso foi levado ao Tribunal do Júri. Durante a sessão de julgamento, Luiz Carlos narrou em detalhes como descobriu os maus-tratos contra a filha. Ele contou que começou a desconfiar quando percebeu que Cristiana, que normalmente usava roupas curtas, passou a vestir apenas peças de manga comprida que cobriam braços e pernas.

"Um dia, ao chegar na casa dela, vi diversos hematomas em seu corpo", relatou o agricultor durante a audiência. "Vizinhos também confirmaram as agressões, que muitas vezes eram públicas. Minha filha admitiu estar sendo espancada pelo marido."

A falha na aplicação da Lei Maria da Penha

Segundo o depoimento de Luiz Carlos, ele chegou a sugerir que a filha denunciasse Charles por violência doméstica com base na Lei Maria da Penha. No entanto, Cristiana teria respondido que não acreditava na eficácia da legislação.

"Ela disse: 'Pai, não adianta levar ele na Lei Maria da Penha. Aquilo que você sempre vê na TV mostra que existe o nome no papel, mas não existe a punição'", narrou o agricultor. "Quer dizer, se existisse a punição, as mulheres não sofreriam o que sofrem hoje. Então eu disse: já que é assim, eu vou ser a lei da minha família, até o último dia da minha vida."

O plano e a execução da vingança

Foi então que Luiz Carlos combinou com a filha que "daria uma surra" em Charles. Segundo seu relato, ele levou o genro de carro até uma área rural com o pretexto de colher mangas. Ao saírem do veículo, com Charles caminhando à frente, o agricultor empunhou uma faca contra seu pescoço.

"Eu perguntei: 'Qual é o lugar preferido que tu gosta mesmo, teu lugar preferido de bater na minha filha?'", contou Luiz Carlos. "O genro respondeu que era 'na cara, para respeitar o homem'. Então eu disse: 'Tu agora vai sentir a dor que ela sentiu'."

O agricultor prosseguiu narrando que deu um tapa no rosto de Charles e, em seguida, aplicou de oito a doze chicotadas no corpo do genro.

As consequências familiares e a defesa do genro

Em um desdobramento trágico, Cristiana continua casada com Charles até hoje e, segundo Luiz Carlos, rompeu contato com os pais sob ameaça de morte do marido. A filha nunca chegou a denunciar formalmente as agressões sofridas.

Durante a mesma audiência, Charles negou que agredia Cristiana sistematicamente, mas admitiu que tiveram desentendimentos e que chegou a empurrá-la durante uma discussão.

O veredicto do júri e suas implicações

A absolvição de Luiz Carlos pelo júri popular levanta questões complexas sobre:

  • A efetividade da Lei Maria da Penha em áreas rurais e interioranas
  • Os limites da justiça pelas próprias mãos
  • A proteção real oferecida às vítimas de violência doméstica
  • O papel das comunidades em casos de agressão familiar

O caso serve como um alerta sobre as falhas percebidas no sistema de proteção à mulher e sobre as medidas extremas que familiares podem tomar quando acreditam que a justiça institucional falhou. A decisão do júri, embora controversa, reflete a percepção social sobre a gravidade da violência doméstica e os desafios enfrentados por vítimas em buscar proteção adequada.