PF denuncia esquema de fraude em concurso público envolvendo delegado e esposa
A Polícia Federal (PF) apresentou uma representação à Justiça Federal na Paraíba detalhando um esquema milionário de fraudes em concursos públicos, com foco no Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024. Segundo o documento, o delegado Diogo Gonçalves Bem, da Polícia Civil de Pernambuco, pagou para que uma organização criminosa fraudasse o concurso e beneficiasse sua esposa, Lariça Saraiva Amando Alencar, que foi aprovada em primeiro lugar para o cargo de auditora-fiscal no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), onde atualmente exerce funções.
Investigação baseada em delação premiada e discrepâncias nas notas
As informações sobre a suposta participação do casal surgiram a partir da delação premiada de Thyago José de Andrade, identificado como chefe da quadrilha, e de sua companheira, Lais Giselly Nunes de Araújo. Thyago não especificou como as respostas do concurso foram repassadas para Lariça, mas Lais confirmou em depoimento que "uma esposa de um delegado também fraudou o concurso do CNU, sendo aprovada em primeiro lugar. Que o nome da candidata era Lariça".
A PF destacou uma discrepância significativa nas notas obtidas por Lariça: na primeira fase, ela alcançou a melhor pontuação nas provas objetiva e discursiva, sugerindo possível repasse de informações. Já na segunda fase, do curso de formação, suas notas foram "relativamente baixas" nas duas avaliações, o que, segundo os investigadores, "indica certo despreparo e pode corroborar com a informação de fraude trazida por Thyago".
Respostas das instituições e investigações em andamento
O g1 tentou contato com o delegado Diogo Bem e com Lariça Alencar, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. O Ministério do Trabalho e Emprego também não se manifestou. A Polícia Civil de Pernambuco, onde Diogo atua, declarou que "não se pronuncia sobre investigações realizadas por outros órgãos".
Por outro lado, a Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco informou que iniciou uma investigação preliminar para verificar as acusações e coletar subsídios sobre eventuais condutas irregulares do servidor.
Detalhes do esquema criminoso e outros envolvidos
A "Operação Concorrência Simulada", deflagrada pela PF em 17 de março, investiga fraudes em concursos públicos em múltiplos estados. O esquema, liderado por uma família de Patos, no Sertão da Paraíba, cobrava até R$ 500 mil por aprovações, utilizando métodos sofisticados como:
- Uso de dublês para realizar provas no lugar dos candidatos.
- Implantação cirúrgica de pontos eletrônicos para comunicação durante os exames.
- Transmissão em tempo real de respostas durante as avaliações.
Entre os investigados, estão pessoas ligadas a forças de segurança, como Gustavo Xavier do Nascimento, delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, e Eudson Oliveira de Matos, policial civil. Dois funcionários da Caixa Econômica Federal, Dárcio de Carvalho Lopes e Flávio Luciano Nascimento Borges, foram presos em João Pessoa e são apontados como integrantes da chamada "Máfia dos Concursos".
A defesa de Thyago José e Lais Giselly afirmou, por meio de advogados, que ambos "não fazem parte de nenhuma organização criminosa" e que provarão sua inocência. A Fundação Cesgranrio, responsável pelo CNU, ressaltou que investe em tecnologia e colaboração com órgãos de segurança para combater fraudes e proteger a integridade dos processos seletivos.
Este caso expõe vulnerabilidades no sistema de concursos públicos e levanta questões sobre a eficácia das medidas de segurança adotadas pelas bancas examinadoras.



