Empresário viaja à Disney enquanto é investigado por contrabando de cigarros eletrônicos
O empresário Rogério de Araújo Sales, que recebeu autorização judicial para suspender o uso da tornozeleira eletrônica e viajar com a filha para a Disney, na Flórida, Estados Unidos, é apontado em investigações da Polícia Federal e Receita Federal como um dos principais fornecedores de cigarros eletrônicos da capital para o interior do estado. As informações constam em relatório da Justiça que detalha as operações de contrabando.
Operação Relutância e vínculos criminosos
Rogério e sua esposa foram alvos da Operação Relutância, deflagrada em 2024, que apreendeu grande quantidade de produtos contrabandeados. As investigações reuniram indícios, a partir de mensagens extraídas de celulares, de possível ligação do grupo com a facção Comando Vermelho.
A Polícia Federal destacou que o empresário mantinha vínculos diretos com fornecedores paraguaios e realizava o pagamento de taxas à facção para garantir a continuidade e fluidez das operações ilícitas. A defesa do empresário informou ao g1 que não irá se manifestar sobre o assunto.
Movimentações financeiras incompatíveis
Com a quebra de sigilo fiscal, as investigações indicaram que Rogério recebeu, entre 2022 e 2024, cerca de R$ 63,7 milhões em contas bancárias, principalmente vinculadas à empresa da qual atua como procurador ou representante legal.
De acordo com relatório da Receita Federal, no mesmo período, ele declarou rendimentos de apenas R$ 402 mil, enquanto suas despesas no cartão de crédito somaram impressionantes R$ 2,9 milhões. Ainda segundo a Justiça, mesmo após a deflagração da Operação Relutância, as movimentações financeiras da empresa em 2025 não seriam compatíveis com as receitas declaradas.
A diferença estimada de cerca de R$ 7 milhões apenas no período parcial do ano "indica a permanência na prática de crimes como contrabando, descaminho ou sonegação", conforme trecho do relatório oficial.
Autorização para viagem à Disney
No último dia 8, a Justiça Federal concedeu habeas corpus que suspendeu o uso da tornozeleira eletrônica no período entre terça-feira (14) e 28 de abril, autorizando Rogério a viajar para os Estados Unidos.
A defesa sustentou que a viagem tem caráter estritamente familiar e está relacionada ao estado de saúde da filha de Sales. "Um momento familiar essencial [...] um possível último grande evento afetivo da criança", afirma trecho da petição.
A defesa também informou que a criança é portadora de cardiopatia congênita grave e já foi submetida ao procedimento de Rastelli, uma cirurgia cardíaca de alta complexidade.
Manifestação do MPF contra a decisão
O Ministério Público Federal (MPF) se manifestou contra a decisão que favoreceu Rogério. Um dia antes, o juiz federal Francisco Antônio de Moura Júnior, da 1ª Vara, tinha negado o pedido da defesa. No entanto, a defesa recorreu à instância superior e conseguiu resposta positiva no dia seguinte.
Outro ponto levantado no parecer do MPF diz respeito aos documentos médicos apresentados pela defesa para justificar a viagem. De acordo com o Ministério Público, os laudos são de 2024 e não comprovam a condição atual de saúde da filha do investigado.
Próximos passos da investigação
Conforme o magistrado, já se passaram mais de 90 dias desde a imposição da cautelar e não houve justificativa por parte do juízo de origem para a manutenção da medida cautelar. Diante disso, ele deferiu o pedido de liminar para afastar a monitoração eletrônica.
O desembargador também determinou que, em até 30 dias após o retorno do investigado, seja reavaliada, em prazo razoável não superior a 30 dias, a necessidade de restabelecimento da medida de monitoramento eletrônico.
A situação expõe as complexidades do sistema judicial brasileiro, onde investigações por crimes graves convivem com decisões que permitem a suspensão de medidas cautelares para viagens internacionais, mesmo quando há fortes indícios de atividades criminosas em andamento.



