Caso Henry Borel: Defesa de Jairinho abandona júri e paralisa julgamento no Rio
Em um movimento que paralisou o andamento da justiça, a defesa do ex-vereador carioca Dr. Jairinho abandonou o plenário do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro nesta segunda-feira, 23 de março de 2026. A saída dos advogados impediu completamente o julgamento que decidirá se o réu é culpado pela morte do menino Henry Borel, ocorrida em março de 2021. Com a interrupção abrupta, uma nova data terá que ser designada para a sessão, adiando ainda mais o veredito que caberá a sete jurados leigos a serem sorteados.
Pedidos de adiamento rejeitados levam a protesto
Os advogados Zanone Júnior e Fabiano Lopes, representantes de Jairinho, alegaram que não tiveram acesso integral a todas as provas do processo, argumentando que isso tornaria o julgamento injusto. A defesa já havia solicitado o adiamento da sessão em múltiplas ocasiões, mas todos os requerimentos foram negados tanto pelo Tribunal de Justiça do Rio quanto pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Nesta segunda-feira, os criminalistas justificaram sua posição afirmando que consultaram Jairinho na prisão e que ele próprio foi contra a realização do júri nas condições atuais. “Nosso constituinte não acha prudente que façamos o júri sem todas as provas”, declarou Fabiano Lopes aos presentes no plenário.
Juíza nega suspensão e desmembramento do processo
A defesa apresentou duas alternativas: a suspensão imediata do julgamento ou o desmembramento do processo para que Jairinho e Monique Medeiros, mãe de Henry e também acusada pelo crime, fossem julgados separadamente. No entanto, a defesa de Monique se posicionou contra qualquer adiamento ou suspensão da sessão.
A juíza Elizabeth Machado Louro, responsável pelo caso, negou ambas as sugestões, considerando que os pedidos já haviam sido extensivamente analisados nas etapas anteriores. Em sua decisão, ela destacou que Jairinho conta com 22 advogados cadastrados no processo – uma equipe jurídica ampla e capacitada que, segundo a magistrada, teve cinco anos para examinar todas as provas disponíveis.
Abandono do plenário como gesto de protesto
Diante da negativa da juíza, os advogados de Jairinho optaram por abandonar o plenário em um gesto claro de protesto, alegando suposto cerceamento de defesa. Sem a presença dos defensores, o júri não pôde continuar, conforme estabelecem as regras processuais.
Zanone Júnior e Fabiano Lopes enumeraram “mais de 30 nulidades” no processo, com a principal queixa girando em torno do acesso ao material extraído do computador de Leniel Borel, pai de Henry e assistente de acusação. A defesa afirma que não teve acesso ao conteúdo integral do notebook, recebendo apenas uma seleção prévia de marcadores.
“Houve uma prévia seleção de marcadores. Passaram alguns filtros no conteúdo e essa defesa teve, portanto, cognição parcial e não integral do material”, reclamou Zanone Júnior durante a sessão.
Acusação vê manobra para obstruir justiça
Do outro lado, o advogado Cristiano Medina, atuando como assistente de acusação, e o promotor Fábio Vieira, do Ministério Público do Rio, consideram que a defesa lançou mão de uma manobra deliberada para obstruir o julgamento.
“A defesa vem querendo empurrar esse julgamento. Quando eu não concordo com uma decisão, eu recorro. Não existe um esperneio, um levantar e um sair daqui. Isso demonstra, no mínimo, um desrespeito absurdo. Não existe abandono de plenário que não seja ilegal nessas condições”, argumentou o promotor Fábio Vieira em resposta à atitude dos defensores.
Outras questões levantadas pela defesa
Além da questão do acesso às provas digitais, a defesa de Jairinho também reclamou de uma suposta interferência de Leniel Borel no Instituto Médico Legal (IML). Segundo os advogados, o engenheiro teve contato com uma das peritas responsáveis pelo laudo da necropsia de Henry – inicialmente tentou contratá-la para um laudo independente, mas posteriormente ela foi requisitada pelo próprio IML.
A defesa já havia suscitado a suspeição dos peritos no início do processo, sem obter sucesso. Essas alegações, no entanto, não foram suficientes para convencer a juíza a adiar o julgamento.
Próximos passos do caso
Com o julgamento paralisado, o Tribunal de Justiça do Rio deverá marcar uma nova data para a sessão. O caso, que já completa cinco anos desde a morte do menino Henry Borel, continua a gerar intenso debate público sobre a eficiência da justiça criminal brasileira e os direitos de defesa em processos de grande repercussão.
Enquanto isso, Jairinho e Monique Medeiros permanecem aguardando o desfecho judicial que determinará suas responsabilidades no trágico episódio que chocou o país em 2021.



