Cinco pessoas indiciadas pela Polícia Civil por incêndio fatal no Shopping Tijuca
A Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu as investigações sobre o trágico incêndio ocorrido no Shopping Tijuca, na Zona Norte da capital fluminense, em janeiro deste ano, e indiciou cinco pessoas pelos crimes relacionados ao sinistro. O fogo resultou na morte da brigadista civil Emellyn Silva Aguiar Menezes, de 26 anos, e do supervisor de segurança Anderson Aguiar do Prado, de 43 anos, além de deixar outras quatro pessoas feridas.
Detalhes dos indiciamentos e crimes imputados
Entre os indiciados estão Adriana Santilhana Nietupski, superintendente do shopping, e Pedro Paulo Alvares, gerente de operações, ambos acusados de incêndio doloso qualificado pela morte, lesão corporal culposa, crime de perigo para a vida ou saúde de outros e fraude processual. Renata Barcelos Pereira Noronha, gerente de negócios do centro comercial, foi indiciada pelos três primeiros crimes, mas não pela fraude processual.
Os outros dois indiciados são os gerentes da loja Bell Art, Fabio Arruda Soares e Felipe Gonçalves Franciscone, que respondem por incêndio doloso e lesão corporal. Ao todo, 38 pessoas foram ouvidas durante o inquérito policial, que revelou uma série de falhas críticas na gestão da emergência.
Falhas graves de segurança e protocolos inadequados
Os delegados Adriano França e Maíra Rodrigues, que coordenaram as investigações, destacaram que os depoimentos apontaram falhas na comunicação após o incêndio, ausência de alarmes eficazes, evacuação desorganizada, treinamento insuficiente para a equipe e demora na transmissão de informações precisas sobre as chamas. A delegada Maíra Rodrigues enfatizou que a loja onde o fogo começou não possuía o alvará do Corpo de Bombeiros, e o shopping carecia de exaustores adequados para combater as chamas.
Segundo a linha do tempo reconstruída pela polícia, o botão de pânico da loja foi acionado às 18h04, mas o Corpo de Bombeiros só foi notificado às 18h27, chegando ao local às 18h40. "A linha de tempo mostra que houve uma falha de gestão que foi preponderante para gerar uma exposição de perigo a todos que estavam no dia do evento", afirmou a delegada Maíra Rodrigues.
Fraude processual e violação de interdição
A investigação também apurou o crime de fraude processual cometido pelos gestores do Shopping Tijuca, que permitiram a entrada de lojistas no local interditado após o incêndio. "Houve o crime de fraude processual, em razão da violação do edital de interdição que tinha o intuito de preservar o local de prova, mas o shopping permitiu a entrada de lojistas para retirada de bens, de itens, e isso acabou colimando na retirada de um item que era importante para a investigação", explicou Maíra Rodrigues.
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, ressaltou que a investigação evidencia "tudo aquilo que os shoppings não devem fazer: sucessão de erros, de falhas de protocolos, o que se deve evitar em um evento desse no shopping". A delegada Raissa Celles, chefe do departamento de polícia da capital, lembrou que havia aproximadamente 7 mil pessoas no shopping no momento do incêndio, e a evacuação foi marcada por falhas significativas.
Origem do incêndio e laudo pericial
O laudo da perícia indicou que o incêndio teve origem em um "acidente termoelétrico" em um ambiente tecnicamente inadequado, sendo potencializado por sucessivas falhas estruturais e de segurança. O documento apontou que o shopping e a loja não dispunham de um sistema eficaz de controle de fumaça em operação, caracterizando o local como "tecnicamente inseguro".
Entre as irregularidades identificadas estavam instalações elétricas em desacordo com normas técnicas, carga de incêndio elevada, falhas de compartimentação, atuação insuficiente dos sistemas de combate e ausência de controle adequado de fumaça. Esses fatores contribuíram decisivamente para a magnitude e propagação do incêndio.
Últimos momentos das vítimas e reabertura do shopping
As câmeras de segurança do Shopping Tijuca registraram os últimos momentos de Emellyn e Anderson. Em depoimento, o chefe da equipe de brigadistas relatou que Anderson voltou a entrar na loja quando o fogo já havia se alastrado e a fumaça estava densa, na tentativa de resgatar duas brigadistas que haviam ficado para trás. Ele conseguiu indicar a saída para uma delas, mas ao voltar para procurar Emellyn, desmaiou dentro da loja.
O Shopping Tijuca reabriu parcialmente em 16 de janeiro, e no início de fevereiro, 91% das lojas já estavam funcionando normalmente. No entanto, clientes relataram que, em alguns pontos do centro comercial, ainda era possível sentir o cheiro de fumaça, um resquício sombrio da tragédia que abalou a Zona Norte do Rio.



