TikTok rastreia sua vida online mesmo sem uso do aplicativo: entenda os riscos
TikTok rastreia sua vida online mesmo sem uso do aplicativo

O império invisível de vigilância do TikTok além das redes sociais

Enquanto milhões de usuários brasileiros se divertem com vídeos curtos no TikTok, poucos imaginam que a plataforma está construindo um perfil detalhado de suas vidas digitais mesmo quando não estão usando o aplicativo. Uma investigação recente revelou mecanismos sofisticados de coleta de dados que transcendem os limites da rede social, atingindo áreas sensíveis da privacidade individual.

Rastreamento além das fronteiras do aplicativo

O TikTok não se limita a monitorar apenas as interações dentro de seu próprio ecossistema. Através de uma tecnologia chamada "pixel", a plataforma consegue acompanhar o comportamento dos usuários em diversos websites externos, coletando informações que vão desde preferências de consumo até dados extremamente pessoais sobre saúde e condições médicas.

"Ele é extremamente invasivo", afirma Patrick Jackson, chefe de tecnologia da empresa de cibersegurança Disconnect. "Quando você analisa o código real do pixel, você observa coisas que parecem muito ruins. Ele ampliou o compartilhamento de dados de forma significativa."

Dados sensíveis em jogo

Durante investigações realizadas no início de fevereiro, foram descobertos websites enviando para o TikTok informações sobre diagnósticos de câncer, tratamentos de fertilidade e até mesmo crises de saúde mental. Esses dados são coletados automaticamente quando os usuários interagem com formulários ou botões em sites de saúde, sem que necessariamente tenham consciência desse compartilhamento.

O mecanismo funciona através de uma imagem invisível, do tamanho de um único pixel na tela, que é carregada em segundo plano nos websites que utilizam a ferramenta. Essa tecnologia permite que o TikTok monitore comportamentos, preferências e até informações pessoais dos visitantes, independentemente de possuírem conta na plataforma.

Expansão do império de dados

Recentemente, o TikTok implementou mudanças significativas em seu sistema de rastreamento. Em 22 de janeiro de 2026, quando as operações nos Estados Unidos foram transferidas para um novo grupo de investidores, a plataforma introduziu uma nova rede publicitária e atualizou seu pixel de rastreamento.

"Naturalmente, estas ferramentas tornam a plataforma mais atraente para os anunciantes", explica Arielle Garcia, chefa de operações do grupo de vigilância da publicidade digital Check My Ads. "E é isso, em última análise, que faz com que as plataformas de anúncios cresçam e expandam seu alcance."

A nova versão do pixel agora coleta mais informações do que antes, interceptando automaticamente dados que os websites enviam para outras plataformas como o Google. Especialistas consideram essa prática extraordinariamente invasiva, pois permite que informações sejam compartilhadas com o TikTok sem o conhecimento explícito dos proprietários dos sites.

O ecossistema de vigilância digital

O TikTok não está sozinho nessa prática. Segundo a empresa de privacidade DuckDuckGo, a plataforma mantém rastreadores em aproximadamente 5% dos principais websites do mundo. Embora esse número venha crescendo consistentemente, ainda é modesto comparado ao Google (presente em quase 72% dos sites) e à Meta (cerca de 21%).

"Esta é literalmente a cartilha empregada pela Google e pela Meta há anos", afirma Peter Dolanjski, diretor-executivo de produtos da DuckDuckGo. "Eles começaram a coletar pequenas quantidades de dados e cresceram até formar um império com visibilidade massiva sobre a vida diária das pessoas."

Os dados coletados podem ser usados para diversos fins, incluindo:

  • Anúncios altamente direcionados
  • Campanhas políticas personalizadas
  • Discriminação de preços
  • Possível exploração de vulnerabilidades

Como se proteger do rastreamento invisível

Felizmente, existem medidas que os usuários podem tomar para reduzir sua exposição ao rastreamento do TikTok e outras plataformas:

  1. Utilizar navegadores com foco em privacidade: Especialistas recomendam navegadores como DuckDuckGo e Brave, especificamente projetados para proteger dados. Firefox e Safari também são considerados melhores opções que o Google Chrome.
  2. Instalar extensões bloqueadoras de rastreamento: Ferramentas como Privacy Badger, Ghostery, AdBlock Plus e uBlockOrigin podem impedir parte da coleta de dados. A Disconnect e o DuckDuckGo também oferecem bloqueadores eficazes.
  3. Limitar o compartilhamento de informações pessoais: Evitar usar os mesmos dados pessoais em múltiplos serviços dificulta a identificação cruzada do comportamento online.
  4. Solicitar exclusão de dados: Usuários do TikTok podem utilizar configurações no aplicativo para "limpar" dados coletados. Quem não possui conta pode solicitar diretamente à empresa a exclusão de informações disponíveis.

A necessidade de regulamentação

Especialistas argumentam que soluções individuais são insuficientes para enfrentar o problema sistêmico da coleta de dados. "Este problema não se limita a uma plataforma", explica Arielle Garcia. "É todo um ecossistema de tecnologia de publicidade que, em última análise, precisa ser combatido com regulamentações mais fortes."

A verdadeira mudança, segundo os defensores da privacidade digital, virá quando os cidadãos pressionarem legisladores por leis mais robustas de proteção de dados. "A única medida que realmente trará mudanças virá quando as pessoas fizerem suas vozes serem ouvidas junto aos legisladores", completa Garcia.

Enquanto o TikTok afirma oferecer configurações de privacidade transparentes e ferramentas de controle aos usuários, a realidade mostra que o rastreamento digital continua a expandir-se de formas cada vez mais sofisticadas, exigindo atenção constante dos consumidores e ação regulatória dos governos.