Pais acusam redes sociais pela morte de filhos em julgamento histórico contra Meta e Google
Redes sociais no banco dos réus por mortes de jovens nos EUA

Processo histórico coloca gigantes da tecnologia no banco dos réus

Um julgamento sem precedentes está ocorrendo em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde pais que afirmam que as redes sociais levaram seus filhos à morte acompanham atentamente as audiências contra a Meta e o Google. Este é o primeiro caso de milhares de processos similares que buscam responsabilizar as empresas de tecnologia por supostos danos à saúde mental de usuários jovens.

O caso exemplar de Kaley

Conhecida apenas pelas iniciais KGM para proteger sua privacidade, Kaley tornou-se o caso central deste julgamento histórico. Ela relatou ao júri que ficava no Instagram até pegar no sono, acordava no meio da noite para conferir notificações e abria o aplicativo assim que despertava. Em um dia extremo, chegou a passar 16 horas consecutivas na plataforma.

"Parei de interagir com minha família porque passava todo meu tempo nas redes sociais", declarou a jovem durante seu depoimento. Kaley começou a usar o YouTube aos seis anos e criou uma conta no Instagram aos nove, apesar das políticas das empresas que proíbem usuários menores de 13 anos.

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Histórias trágicas que ecoam na corte

Lori Schott, que não participa diretamente do processo, tem acompanhado o julgamento de perto. Sua filha Annalee tirou a própria vida aos 18 anos, tragédia que Schott atribui à exposição a conteúdos psicologicamente prejudiciais no Instagram. "Eles esconderam as evidências que tinham. Sabiam que era viciante. Nos deram uma falsa sensação de segurança", desabafou à BBC.

Aaron Ping também presencia as audiências. Seu filho Avery cometeu suicídio aos 16 anos, após transformar-se de um "companheiro de aventuras" em alguém que constantemente brigava por causa do uso excessivo do YouTube. A família chegou a elaborar um acordo sobre tempo de tela com orientadores escolares.

O cerne da questão legal

O ponto central do caso reside em determinar se Kaley era viciada em redes sociais e se as empresas projetaram suas plataformas intencionalmente para serem viciantes. A juíza Carolyn Kuhl destacou que a maioria das questões legais envolvidas são "completamente inéditas" no sistema judiciário.

O resultado pode ser tão impactante que Mark Zuckerberg, cofundador e CEO da Meta, compareceu pessoalmente para defender suas plataformas - sua primeira aparição desse tipo em um tribunal. Durante seu depoimento, o bilionário insistiu que sua empresa sempre teve política de proibir menores de 13 anos, embora documentos internos revelem discussões executivas sobre milhões de crianças usando Instagram e Facebook.

Consequências potenciais do veredito

Se o júri decidir a favor de Kaley, isso poderá:

  • Abralar décadas de precedentes legais que tratam plataformas como meros repositórios
  • Abrir caminho para acordos históricos a serem pagos por empresas de tecnologia
  • Influenciar milhares de casos similares atualmente em tramitação nos EUA
  • Estabelecer novos parâmetros de responsabilidade para big techs

A defesa das empresas

A Meta argumenta que os problemas de saúde mental de Kaley decorrem de sua vida pessoal e criação familiar, não podendo ser atribuídos ao uso do Instagram. Adam Mosseri, chefe do Instagram, testemunhou que mesmo 16 horas de uso não configuram vício, classificando tal comportamento como "problemático".

Os advogados da empresa destacaram postagens da própria Kaley que mostram uma jovem lidando com pais instáveis, críticos de sua aparência e, por vezes, abusivos emocional, verbal e fisicamente. Eles questionam se os problemas mentais da jovem são claramente causados pelas redes sociais ou se múltiplos fatores contribuíram para sua história.

O dilema do diagnóstico

O foco dos advogados de Kaley no vício em redes sociais enfrenta obstáculos, já que essa condição não existe oficialmente nos manuais médicos. Quando questionada, uma terapeuta que tratou a jovem admitiu nunca ter diagnosticado dependência em redes sociais.

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Atualmente, Kaley mantém um relacionamento melhorado com a mãe, trabalha enquanto estuda e continua usando redes sociais - inclusive expressou interesse em seguir carreira em gestão de mídias sociais. Porém, quando perguntada se sua vida seria melhor sem plataformas como o Instagram, sua resposta foi breve e direta: "Sim."

Este julgamento ocorre em meio a crescente pressão pública e política contra grandes empresas de tecnologia, com pais e governos começando a restringir o uso de mídias sociais por jovens, argumentando que as plataformas expõem crianças a padrões de beleza inatingíveis e até predadores sexuais.