Polícia investiga casos de deepfake envolvendo adolescentes em escola de Campo Grande
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul está conduzindo uma investigação séria sobre casos de deepfake que vitimaram adolescentes em uma escola particular de Campo Grande. Segundo denúncias, colegas de turma são suspeitos de utilizar inteligência artificial para criar nudes falsos de alunas, com as imagens manipuladas sendo posteriormente comercializadas em grupos de mensagens.
Vítimas relatam trauma e revolta após descoberta
Pelo menos cinco meninas teriam sido afetadas por essa prática criminosa. Uma das adolescentes, acompanhada da mãe, compartilhou com a reportagem o impacto emocional devastador da experiência. "No momento que eu fiquei sabendo, eu senti muita raiva. Tem vezes que eu acordo e não lembro muito, tento esquecer. Só que tem vezes que eu me olho no espelho e eu me sinto suja. Eu sei que o corpo nas fotos não era meu, mas o rosto era", desabafou a jovem, que teve sua identidade preservada.
As montagens foram atribuídas a três colegas de turma, que, segundo a vítima, chegaram a confessar a manipulação das imagens. A adolescente de 15 anos descreveu o confronto: "Na hora que eu desci para confrontar ele parecia que eu tinha perdido o chão. Conversei com ele, perguntei o porque tinha feito isso, ele não soube dar uma resposta", relatou, ainda emocionada.
Investigação e enquadramento legal do caso
O caso está sob a responsabilidade da Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude (Deaji). Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a conduta é tipificada como ato infracional, especificamente "participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual".
A delegada titular da Deaji, Daniella Kades, enfatizou a gravidade da situação: "Quando há montagem ou transformação de vídeos através da inteligência artificial, que agora é uma coisa corriqueira, nós temos um crime ou um ato infracional. No caso disso ocorrer no âmbito escolar, com a exposição contínua e repetitiva desse menor, nós teremos um crime, que é o 241C do ECA, com pena até 3 anos".
Ela destacou ainda que, além da manipulação, as imagens falsas foram comercializadas por cerca de R$ 50 cada, ampliando a cadeia de responsabilização. "Todos os estudantes que participaram dessa cadeia, desde a montagem da fotografia, do armazenamento, da distribuição ou da venda, ou até mesmo quem comprou, porventura, uma fotografia modificada, respondem pelo mesmo ato infracional", explicou a delegada.
Impacto psicológico e rede de apoio às vítimas
A psicóloga Luana Silva alertou para os gatilhos emocionais envolvidos, especialmente na adolescência, fase marcada por vulnerabilidades. "Quando isso acontece na adolescência isso é ainda muito pior, porque pode gerar um grande isolamento social, fazer com que aquela pessoa até mesmo se sinta culpada por aquela atitude provocada por outros", afirmou.
A adolescente vítima recebe suporte psicológico e conta com uma rede de apoio familiar. "Sem todo esse apoio que tenho recebido, estaria sendo muito pior. A minha mãe tem me ajudado bastante, minha psicóloga, minha família toda. Meus amigos também", compartilhou. No entanto, ela ainda enfrenta dias difíceis: "Tem vezes que eu me olho no espelho e me sinto suja. Sei que o corpo nas fotos não era meu, mas o rosto era. E eu me sinto invadida".
Orientações para pais e medidas preventivas
A mãe da adolescente, que preferiu não se identificar, relatou o choque ao descobrir o crime. "Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer com a minha filha. O celular dela é monitorado, eu tenho a senha, olho tudo em que ela entra. Sempre tive essa preocupação, mas nunca passou pela minha cabeça que alguém teria a capacidade de pegar uma foto da minha filha, alterar e vender", lamentou.
Ela fez um apelo público: "Deixo aqui o meu apelo, para que todas as mães que as filhas foram vítimas desses três meninos, que procurem a delegacia, que registrem o boletim de ocorrência para que todas as medidas necessárias sejam tomadas".
O advogado Raphael Chaia reforçou a importância da participação ativa dos pais na vida digital dos filhos. "Saiba quais sites seus filhos acessam, saibam com quem eles conversam, que jogos eles frequentam para que vocês possam ter segurança e a tranquilidade de que eles não estão perpetrando uma prática tão abusiva quando a do bullying", orientou.
Conscientização e busca por justiça
A adolescente ouvida pela reportagem enfatizou a necessidade de tratar tais incidentes com a seriedade que merecem. "A minha geração agora é uma geração que tá muito dentro da internet e a gente precisa ter limites com isso. O que aconteceu comigo, e que eu tenho certeza que aconteceu com muitas outras meninas, é um crime. A gente não pode deixar isso ser levado como uma brincadeira, porque é sério. Isso causa danos físicos, pode acontecer, e mentalmente com certeza. A gente tem que correr atrás da justiça", declarou.
A delegada Daniella Kades informou que este é o terceiro caso de modificação de fotografia com uso de inteligência artificial registrado em ambiente escolar neste ano letivo, mesmo com o período recentemente iniciado. A polícia já oficiou a escola para identificar os alunos envolvidos e dar andamento à investigação.



