Orion: Brasil terá 1º laboratório NB4 da América Latina para vírus perigosos em 2027
Brasil construirá laboratório de biossegurança máxima em Campinas

O Brasil está construindo, em Campinas (SP), o primeiro laboratório com nível máximo de biossegurança do país e de toda a América Latina. Batizado de Orion, o complexo científico permitirá que pesquisadores estudem, com segurança, os vírus e bactérias mais perigosos e letais conhecidos pela humanidade.

Um Forte Contra Patógenos Perigosos

A unidade está sendo erguida no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e tem previsão de conclusão para 2027. Após a construção, ainda passará por comissionamento técnico e certificações internacionais antes de entrar em operação regular. O investimento total no projeto é estimado em R$ 1,5 bilhão.

O Orion receberá a classificação NB4, o mais alto nível de contenção biológica. Esta categoria é exigida para trabalhar com agentes de alto risco de infecção fatal e com elevado potencial de transmissão por aerossóis, como os vírus que causam doenças hemorrágicas graves.

Protocolos de Segurança Extremos

A segurança é a pedra angular do projeto. Para acessar o laboratório, os pesquisadores passarão por múltiplos pontos de controle e precisarão vestir um macacão pressurizado completo, semelhante a um traje espacial, com capacete, botas e luvas integradas.

Este equipamento de proteção individual (EPI) isola completamente o profissional do ambiente interno. O macacão fica inflado com ar filtrado, mantendo uma pressão positiva que impede a entrada de ar contaminado. Caso haja um rompimento, o fluxo de ar para fora do traje protege o usuário.

A saída do laboratório é um ritual demorado e meticuloso. O pesquisador, ainda de macacão, passa por um banho químico de sete minutos para descontaminação. Só depois o traje é removido e guardado para reuso, e o profissional toma um banho pessoal. As roupas hospitalares usadas por baixo são esterilizadas em autoclave antes da lavagem comum.

Ar, Resíduos e Treinamento Impecáveis

O tratamento do ar é outro pilar crítico. Todo o ar que sai do laboratório passa por uma dupla filtragem. Sensores monitoram a pressão continuamente, e dispositivos mantêm pressão negativa nas cabines e áreas adjacentes, garantindo que o ar flua apenas para dentro, nunca para fora do ambiente controlado.

Todo o material descartado é esterilizado em autoclaves de porta dupla, e os efluentes líquidos passam por tratamento químico e térmico. As amostras serão manipuladas exclusivamente dentro de cabines de segurança biológica.

Para reduzir ao máximo os riscos operacionais, o CNPEM já montou um centro de treinamento, o primeiro do tipo na América Latina. Tatiane Ometto, gerente de biossegurança do CNPEM, explica que os cientistas praticam os protocolos complexos de forma lúdica, com brinquedos e tintas, antes de lidar com qualquer risco real.

Conexão Única com o Sirius e Avanço Científico

O que torna o Orion ainda mais singular é sua conexão direta com o Sirius, o acelerador de partículas de última geração do Brasil. O laboratório de biossegurança máxima terá acesso exclusivo a três linhas de luz (estações de pesquisa) do Sirius, uma configuração que não existe em nenhum outro lugar do planeta.

É justamente essa ligação que inspirou o nome Orion, uma constelação que possui três estrelas alinhadas que "apontam" para a estrela Sírius. Essa integração permitirá análises estruturais detalhadas de patógenos em nível atômico e molecular, acelerando o desenvolvimento de diagnósticos, vacinas e tratamentos.

O complexo, com cerca de 29 mil metros quadrados, representa um salto estratégico para a ciência brasileira. Ele colocará o país no seleto grupo de nações capazes de isolar, monitorar e pesquisar os agentes biológicos mais temidos, preparando o Brasil para responder a futuras pandemias e emergências de saúde pública com soberania tecnológica.