O ano de 2025 colocou Mato Grosso do Sul no centro das atenções do país por um motivo fascinante: o estado se consolidou como o principal reduto das maiores serpentes do Brasil, as sucuris. De rios cristalinos em áreas turísticas a uma cratera isolada com centenas de milhares de anos, os cenários são diversos, mas todos compartilham um denominador comum: a preservação ambiental que oferece condições ideais para esses gigantes répteis.
Bonito: Berço das Gigantes em Águas Transparentes
A cidade de Bonito, já famosa por suas paisagens paradisíacas, ganhou um novo título: berço das maiores sucuris. O município registra um número elevado de avistamentos, e foi lá que cientistas documentaram uma das maiores já encontradas. A sucuri fêmea, batizada de Ana Júlia, media 6,45 metros e pesava cerca de 200 quilos. Seu corpo foi encontrado sem vida em março de 2024 nas águas do Rio Formoso.
Segundo o biólogo e especialista Henrique Abrahão Charles, a explicação para a concentração desses animais na região é direta. "As sucuris são avistadas constantemente em Bonito porque é uma área preservada, com abundância de alimento e grande diversidade de animais", afirma. Um fator adicional e peculiar da região é a transparência da água, resultado do solo rico em calcário, que permite ver as cobras com clareza durante passeios, transformando o ecoturismo em uma experiência única.
Do Buraco Milenar ao "Rei das Sucuris"
Além de Bonito, outros locais do estado guardam histórias intrigantes. Em Jardim, uma sucuri gigante vive isolada no Buraco das Araras, uma formação rochosa com cerca de 300 mil anos e mais de 100 metros de profundidade. A serpente foi descoberta em 2017 por um turista atento e, desde então, os avistamentos são raros. Especula-se que ela possa ter caído na dolina durante uma forte enxurrada, ficando presa em um verdadeiro "mundo perdido".
Já no município de Jateí, o pescador e influenciador Rafael Gandine, de 38 anos, ficou conhecido como o "rei das sucuris". Morador do assentamento Gleba Nova Esperança, ele já registrou mais de 100 encontros com os animais e soma mais de um milhão de seguidores nas redes sociais. Em uma dessas ocasiões, Rafael sofreu uma rara mordida ao pisar acidentalmente em uma cobra durante uma pescaria, mas se recuperou bem após atendimento médico.
Preservação: A Chave para o Equilíbrio e os Encontros
Os especialistas são unânimes em apontar que a preservação ambiental é o fator principal por trás da frequência e do tamanho impressionante das sucuris avistadas em Mato Grosso do Sul. De acordo com o biólogo Henrique Charles, a região funciona como um berçário natural para a espécie, graças à vegetação conservada, à grande oferta de água e à diversidade de fauna.
As sucuris desempenham um papel ecológico vital, atuando como controladoras de populações de outros animais. Os avistamentos tendem a aumentar na estação seca, entre maio e setembro, quando os rios ficam mais rasos e transparentes, tornando as serpentes mais visíveis, principalmente perto das margens.
Pesquisadores também aproveitam para desmistificar a espécie:
- Sucuris não atacam humanos e evitam contato;
- Relatos de cobras com mais de 10 metros são considerados exagerados;
- São animais semiaquáticos, passando grande parte do tempo na água;
- Quando se sentem ameaçadas, sua reação mais comum é a fuga.
A presença desses gigantes é, portanto, um indicativo de ambiente saudável e equilibrado. Onde há sucuris, a natureza segue seu curso, preservada e surpreendente, fazendo de Mato Grosso do Sul um verdadeiro santuário para a maior serpente do Brasil.