Coalisão processa EPA por revogar base científica de regulação climática nos EUA
EPA processada por revogar base científica de regulação climática

Coalisão de entidades processa agência ambiental dos EUA por revogação de base científica

O Environmental Protection Agency (EPA), agência de proteção ambiental dos Estados Unidos, foi alvo de uma ação judicial nesta quarta-feira (18) movida por uma coalisão de organizações de saúde pública e meio ambiente. Os grupos contestam a decisão do órgão de revogar, na semana passada, uma conclusão científica fundamental que servia como base para as ações americanas de regulação das emissões de gases de efeito estufa e combate às mudanças climáticas.

Revogação da "endangerment finding" de 2009

Uma regra finalizada pela agência anulou completamente a declaração de 2009, conhecida como "endangerment finding", que determinava oficialmente que o dióxido de carbono e outros gases representavam uma ameaça concreta à saúde pública e ao bem-estar da população. Esta conclusão histórica, adotada durante o governo de Barack Obama, sustentava praticamente todas as normas climáticas aplicadas a veículos, usinas de energia e outras fontes significativas de poluição responsáveis pelo aquecimento global.

Especialistas ambientais alertam que a revogação elimina os padrões de emissões para carros e caminhões e pode abrir caminho perigoso para a retirada sistemática de outras regras ambientais cruciais, incluindo aquelas que regulam usinas e instalações de petróleo e gás. A contestação judicial foi apresentada formalmente ao Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Circuito do Distrito de Columbia.

Ação judicial alega ilegalidade da decisão

Segundo os autores da ação, a decisão do EPA é completamente ilegal e desmonta salvaguardas consideradas essenciais para reduzir efetivamente a poluição climática. Brian Lynk, advogado do Environmental Law & Policy Center, argumentou que quase duas décadas de evidências científicas sólidas sustentaram a conclusão original de 2009 e que a agência "não pode afirmar de forma crível" que esse extenso conjunto de estudos esteja errado.

Lynk afirmou ainda que a medida cria incerteza imediata para empresas, garante disputas judiciais prolongadas e enfraquece significativamente a estabilidade das regras federais sobre o clima. Entre as organizações que moveram o processo estão a American Public Health Association, a American Lung Association e grupos ambientais importantes como o Sierra Club. A ação cita como réus diretos o administrador da agência, Lee Zeldin, e o próprio EPA como instituição.

Posições divergentes sobre a revogação

Ao anunciar a revogação, o presidente Donald Trump classificou a medida como "a maior ação de desregulamentação da história americana". Zeldin, por sua vez, afirmou que a conclusão de 2009 representava o "Santo Graal do excesso regulatório federal" e que ela levou a trilhões de dólares em regras que prejudicaram setores inteiros da economia, incluindo especialmente a indústria automobilística.

Em contraste, grupos ambientais afirmam que a decisão representa o maior ataque já feito pelo governo federal dos EUA à capacidade nacional de enfrentar as mudanças climáticas de forma eficaz. Segundo esses grupos, as evidências científicas que embasaram a conclusão original ficaram ainda mais fortes e convincentes ao longo dos últimos anos, tornando a revogação ainda mais questionável.

Contexto legal e impactos potenciais

A legislação americana determina claramente que o EPA deve limitar a emissão de qualquer poluente do ar que possa ameaçar legitimamente a saúde pública. Em 2007, a Suprema Corte decidiu que gases de efeito estufa se enquadram precisamente nessa definição legal, levando a agência a formalizar a conclusão científica dois anos depois, em 2009.

Defensores da ação judicial atual afirmam que análises internas do próprio EPA indicam que o fim dos padrões para veículos aumentará consideravelmente o preço da gasolina e fará os americanos gastarem muito mais com combustível. Para Gretchen Goldman, presidente da Union of Concerned Scientists, a revogação representa "uma completa abdicação" da missão fundamental da agência de proteger a saúde da população.

Goldman afirmou ainda que a medida contraria frontalmente a ciência disponível e ocorre num momento particularmente crítico, quando as emissões que retêm calor e as temperaturas globais continuam subindo aceleradamente, impulsionadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis e causando impactos humanos e econômicos crescentes em todo o mundo.