Força-tarefa solidária acolhe famílias desabrigadas após tragédia em Juiz de Fora
Solidariedade em Juiz de Fora acolhe famílias após deslizamentos

Força-tarefa solidária acolhe famílias desabrigadas após tragédia em Juiz de Fora

Enquanto famílias tentam se reerguer após perderem tudo nos deslizamentos e enchentes que atingiram a região, uma impressionante rede de solidariedade se forma nos abrigos de Juiz de Fora. Moradores da cidade pausaram suas próprias rotinas para garantir acolhimento, organização e cuidado às centenas de pessoas desalojadas pela tragédia.

Após chuvas fora da normalidade, a principal cidade da Zona da Mata mineira sofreu uma série de deslizamentos e enchentes que resultaram em mais de 70 vítimas fatais, somando Juiz de Fora e Ubá. Diante desse cenário devastador, a resposta comunitária tem sido um ponto de luz em meio à escuridão.

Voluntariado como forma de processar a tragédia

Para muitos voluntários, a atuação direta nos abrigos representa uma forma concreta de processar a magnitude da tragédia. Eduarda Boechat, de 25 anos, decidiu dedicar atenção especial à recreação infantil nas escolas que funcionam como abrigos temporários.

"Fiquei arrasada quando soube da tragédia. Veio um sentimento terrível de impotência. O voluntariado foi uma forma de agir, de tentar levar algum alento em um momento tão triste", relatou a jovem. "Eu amo crianças e sei que elas precisam ainda mais de atenção, distração e cuidado em um momento tão sensível".

Com experiência anterior em projetos de extensão universitária no Hospital Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ), Eduarda utiliza o trabalho voluntário como mecanismo para lidar com o impacto emocional dos últimos dias. "Ver a felicidade das crianças com algo tão simples quanto uma brincadeira é lindo demais. Elas ficam extremamente felizes com qualquer atividade", destacou.

A jovem já organiza, junto a outros voluntários, um projeto de longo prazo para garantir a continuidade da assistência nas próximas semanas, demonstrando que o compromisso vai além da resposta imediata à emergência.

Desafios operacionais nos bastidores

Nos bastidores da operação, os desafios são predominantemente operacionais. Desde a manhã de 24 de fevereiro, o supervisor da Secretaria Municipal de Educação, Evandro César Azevedo da Cruz, de 45 anos, percorre as 18 unidades da rede municipal que se transformaram em pontos de apoio emergencial.

Entre os principais obstáculos enfrentados estão:

  • Reorganização completa dos espaços escolares
  • Distribuição eficiente de doações recebidas
  • Solução de problemas estruturais urgentes
  • Garantia de condições básicas de higiene e conforto

"Tive que subir na caixa d'água, resolver vazamento, correr atrás de colchões, roupas e alimentação. Foi tudo muito rápido. Era preciso garantir o mínimo de dignidade para quem chegou sem nada", contou Evandro.

Segundo ele, o cenário é de famílias profundamente abaladas, mas a solidariedade local tem sido o ponto de viragem emocional. "Vemos famílias despedaçadas, pessoas profundamente abaladas. É muito difícil. Mas, ao mesmo tempo, a solidariedade emociona. Pessoas que quase não têm quase nada estão a doar o que podem", completou.

Escolas transformadas em refúgios humanizados

A vice-diretora da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves, no bairro Bom Jardim, Laurisa Barreto do Nascimento, também integrou a frente de trabalho que transformou instituições de ensino em espaços de acolhimento. A escola tornou-se um dos principais pontos de refúgio da cidade.

Para Laurisa, o trabalho coletivo tem sido o diferencial fundamental para atravessar os dias mais difíceis. Junto aos outros voluntários, ela montou espaços lúdicos com brinquedos, tintas e atividades recreativas especialmente pensadas para o público infantil.

"Pensamos em criar momentos de leveza. Preparamos atividades, pintura, massinha, brincadeiras e o parquinho, para que elas consigam atravessar esse período de uma forma um pouco mais acolhedora", explicou a vice-diretora.

A transformação das escolas em abrigos representa não apenas uma solução prática para o problema de moradia temporária, mas também uma abordagem humanizada que considera as necessidades emocionais e psicológicas dos desabrigados, especialmente das crianças.

A força-tarefa que se formou em Juiz de Fora demonstra como, mesmo diante de tragédias de proporções devastadoras, a solidariedade humana pode construir pontes de esperança e reconstrução. Enquanto as famílias começam o longo processo de recuperação, a rede de apoio continua se fortalecendo, mostrando que a comunidade mineira sabe se unir nos momentos mais desafiadores.