Sobrevivente de soterramento em Juiz de Fora relata momentos de terror sob a lama
Tarcílio Domingos da Silva, de 37 anos, viveu cerca de uma hora de agonia completamente soterrado após tomar a decisão de retornar para sua casa durante o forte temporal que atingiu Juiz de Fora na noite de segunda-feira, dia 23. O morador arriscou a própria vida com um objetivo nobre: tentar salvar seus dois cachorros que haviam ficado para trás. Apesar dos esforços, apenas um dos animais sobreviveu, enquanto o outro não resistiu e faleceu ao lado do dono durante o desastre.
Decisão difícil em meio ao caos
O sobrevivente contou que não estava em casa quando a chuva começou a cair com intensidade alarmante. Preocupado, ele decidiu retornar para verificar se sua mãe havia conseguido sair em segurança. Durante o trajeto, encontrou-a no meio do caminho, o que trouxe alívio imediato ao seu coração. No entanto, uma nova preocupação tomou conta de seus pensamentos: seus companheiros caninos.
"Quando encontrei ela no meio do caminho aliviou o coração. Mas não consegui deixar meus cachorros sozinhos. Pensei neles e nos meus vizinhos também. Quando comecei a subir, já não via mais a casa de alguns", relatou Tarcílio com emoção.
O momento do desastre
Ao chegar à residência, Tarcílio conseguiu libertar um dos cachorros. Porém, quando se preparava para resgatar o segundo animal, foi surpreendido por uma força avassaladora da terra, que ele descreveu como uma verdadeira avalanche de lama e entulhos. Tentou correr, mas não teve tempo suficiente para escapar. Foi arrastado por aproximadamente cinco metros e prensado violentamente contra uma árvore.
"Eu só pensava em sair dali. A água continuava descendo muito forte. Pensava: 'se eu não sair daqui agora, eu vou morrer'. Era só nisso que eu conseguia pensar", recordou o sobrevivente sobre os momentos de desespero vividos durante aproximadamente sessenta minutos no escuro completo, preso entre os destroços.
Consequências físicas e emocionais
Durante o soterramento, Tarcílio sofreu ferimentos significativos na perna, incluindo escoriações múltiplas e um corte profundo na panturrilha. Após conseguir se libertar por seus próprios meios, foi atendido na UPA Norte da cidade, onde recebeu os primeiros cuidados médicos.
Atualmente, ele está abrigado na Escola Municipal Raymundo Hargreaves, localizada no bairro Bom Jardim. Este é um dos quinze locais que a prefeitura disponibilizou para acolher pessoas que perderam suas casas ou viviam em áreas que precisaram ser evacuadas devido ao risco iminente.
Perdas materiais e reconstrução
Além do trauma psicológico e das lesões físicas, Tarcílio enfrenta a dura realidade de ter perdido todos os bens materiais da família. "Perdi tudo. Morava eu e minha mãe. Ela conseguiu sair e não se feriu, está na casa de parentes. Agora é recomeçar, tentar arrumar uma casa melhorzinha para ela", explicou com resignação.
A situação econômica também se agravou: "Também perdi meu emprego, porque não tenho carteira assinada. Mas agradeço por estarmos vivos", concluiu, demonstrando uma mistura de gratidão pela sobrevivência e preocupação com o futuro incerto.
Contexto da tragédia em Juiz de Fora
A principal cidade da Zona da Mata mineira sofre desde o início da semana com volumes extraordinários de chuva. Os temporais provocaram:
- Dezenas de deslizamentos de terra
- Vítimas fatais confirmadas
- Milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas
- Danos materiais extensos em diversas comunidades
A dor pela perda de seu companheiro canino ainda ecoa nas palavras de Tarcílio: "É uma dor muito grande. Eles eram meus companheiros", lamentou, lembrando do vínculo especial que mantinha com seus animais de estimação.



