Deslizamento no Morro do Cristo em Juiz de Fora: especialistas alertam para riscos geológicos
Deslizamento no Morro do Cristo: riscos geológicos em Juiz de Fora

Deslizamento no Morro do Cristo revela vulnerabilidade geológica em Juiz de Fora

O Morro do Cristo, um dos principais cartões-postais de Juiz de Fora, conhecido por sua vista panorâmica da cidade, foi tomado por um rastro de terra após um deslizamento registrado no início da semana, decorrente de chuvas intensas. O evento transformou a paisagem turística em um cenário de destruição e acendeu um alerta sobre a segurança da região. Após precipitações fora da normalidade, a principal cidade da Zona da Mata mineira enfrentou uma série de deslizamentos e enchentes que resultaram em 64 mortes e uma pessoa desaparecida até a noite de sábado (28).

Falsa sensação de segurança em área rochosa

O episódio levantou dúvidas sobre a segurança de viver aos pés de uma formação que muitos acreditavam ser firme o suficiente para resistir a intempéries climáticas, devido à sua base rochosa. O especialista Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), reforça que a população frequentemente ignora os perigos da face rochosa por acreditar que 'pedra não cai'. "Essa falsa sensação de segurança de que, por ser rochoso, não tem risco de movimento de massa, na verdade, é uma falácia", alertou.

Felippe explicou que os paredões rochosos não são suscetíveis a escorregamentos tradicionais, mas possuem padrões de fraturas que permitem o desplacamento de blocos rochosos ao longo do tempo. "Essas fraturas permitem a entrada de água e o processo, que chamamos de intemperismo da água, nessas fraturas, vai aumentando o tamanho dessas fraturas", detalhou. Para entender a composição do morro, os motivos do colapso e o cenário de risco, o relatório técnico do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), publicado em 2024, foi consultado.

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Composição e formação do Morro do Cristo

Originalmente chamado de Morro do Imperador, o local teve o nome popular, Morro do Cristo, oficializado após a criação de um monumento natural. É uma referência histórica e um dos principais pontos turísticos e de lazer da cidade, com cerca de 930 metros de altitude. O topo plano abriga um mirante, lanchonete, área de lazer, uma estátua do Cristo Redentor inaugurada em 1906, além de condomínios residenciais, um clube e infraestruturas de telecomunicações. Atualmente, a área é protegida por lei e classificada como unidade de conservação.

Segundo o professor Miguel Felippe, o Morro do Cristo é uma elevação geomorfológica embasada predominantemente por uma rocha chamada granulita. Diferentemente do que se imagina, o morro não é um bloco de pedra maciço e indestrutível. No topo, há uma camada delgada de solo sobre a rocha. Com o excesso de água provocado pelas chuvas, o solo encharcou, perdeu aderência e deslizou. "São rochas que têm um padrão de fraturamento muito intenso, muito denso e muito diverso, o que faz com que haja uma suscetibilidade natural a movimentos de massa do tipo queda e rolamento de blocos", explicou.

Além disso, o especialista destacou outras características:

  • Descontinuidades: A rocha tem fendas que permitem a entrada da água.
  • Intemperismo: Com o tempo, a água que penetra nessas rachaduras vai 'comendo' a rocha por dentro, aumenta as fendas e causa o desplacamento de blocos.
  • Rampa de detritos: A base do morro é formada pelo acúmulo de rochas que caíram do topo ao longo de milhares de anos, provando que o processo de queda de blocos é natural e recorrente na região.

Causas e consequências do desastre

Um documento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) datado de 2017 já mostrava o risco elevado de deslizamentos de rocha na região do Morro do Cristo, próximo ao centro de Juiz de Fora. "Observam-se ocupações muito próximas à jusante do maciço, em alta vulnerabilidade", diz o documento, apontando 15 imóveis ameaçados. O desastre da última semana de fevereiro não foi causado por um evento isolado, mas por um conjunto de movimentos de massa simultâneos.

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Com base na análise de imagens, Miguel Felippe informou que o que parece ter ocorrido é um escorregamento raso no topo do morro, que desencadeou o deslocamento de um grande volume de material terroso e rochoso encosta abaixo. Como o morro apresenta um desnível de quase 250 metros e inclinação muito acentuada, a massa de solo e detritos desceu em altíssima velocidade, carregando tudo o que encontrava pela frente, incluindo vegetação e rochas. "No pé do morro tem as construções urbanas e isso aconteceu justamente na face do Morro do Cristo que está voltada para o centro da cidade, e aí a gente teve todos os transtornos associados à infraestrutura logística da cidade, com diversas ruas interrompidas e casas que acabaram caindo", relatou.

Riscos futuros e recomendações

O risco no Morro do Cristo é classificado como alto, sendo mapeado tecnicamente pela UFJF, pela Prefeitura e pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM). A estrutura geológica da região torna o cenário permanentemente suscetível a novos movimentos. Segundo o professor Miguel Felippe e o relatório do serviço geológico, o risco se divide conforme a composição do terreno:

  1. Queda de blocos: O relatório técnico adverte que o processo de queda ou tombamento de blocos pode ocorrer sem aviso prévio, tanto em períodos chuvosos quanto secos.
  2. Instabilidade em áreas interditadas: Locais como a Gruta de Nossa Senhora de Fátima são considerados inviáveis para eventos públicos devido à altura do paredão e à ausência de recuo de segurança.
  3. Risco de novos deslizamentos: Com o solo ainda saturado, a Defesa Civil mantém o alerta para áreas de encosta onde a vegetação foi removida ou onde existem blocos "em balanço".

Especialistas recomendam restringir o acesso ao morro em dias de chuva intensa e prolongada, além de monitorar constantemente as fraturas no topo dos paredões. A orientação para os moradores das áreas de encosta é manter o estado de alerta e seguir as instruções da Defesa Civil. Em caso de chuvas intensas ou surgimento de qualquer sinal de instabilidade no terreno, a orientação das autoridades é priorizar a segurança e acionar os órgãos competentes imediatamente.

Telefones de Emergência:

  • Defesa Civil: 199 (Atendimento 24h para vistorias e ocorrências de risco).
  • Corpo de Bombeiros: 193 (Emergências que envolvam risco iminente de vida ou desabamento).
  • Polícia Militar: 190 (Para suporte em evacuações de áreas de risco).