Da dor pessoal à profissão: a trajetória de um agente funerário no Acre
A morte de um amigo próximo despertou em Maycon Magalhães, um acreano de 30 anos, uma curiosidade profunda sobre o que acontece após o fim da vida. Esse interesse, nascido da perda, levou-o a uma carreira pouco convencional. Há quatro anos, Maycon atua como agente funerário em Rio Branco, acompanhando diariamente histórias de despedida e a dor de famílias enlutadas.
No Dia do Agente Funerário, comemorado em 17 de maio, Maycon compartilhou com detalhes como iniciou nesse ramo, revelando os bastidores de uma profissão essencial, porém frequentemente mal compreendida.
O despertar para a profissão
A decisão de ingressar na área surgiu após uma indicação que aconteceu pouco tempo depois da morte do amigo Marcos Felipe, que tinha apenas 21 anos. "Fiquei curioso sobre o que acontece depois da morte. Eu conhecia o neto da dona da funerária e ele acabou me indicando para trabalhar", relatou Maycon.
Ele descreveu Marcos Felipe como um irmão e parceiro sem maldade, uma pessoa com grande vontade de ser alguém na vida e com um coração enorme. "Ele só se importava em estar com você pelo que você era", lembrou, emocionado.
A rotina além do imaginário
Engana-se quem pensa que o trabalho de um agente funerário se resume a dirigir o carro funerário ou acompanhar cortejos. Segundo Maycon, a rotina envolve múltiplas etapas que muitas pessoas sequer imaginam.
- Realização da remoção do óbito
- Cortejo até o cemitério
- Translado entre municípios
- Preparação do corpo para o velório
"Não tem hora para comer. O que ninguém imagina é que a gente faz tudo, desde o banho até o procedimento de conservação", explicou o profissional, destacando a dedicação integral que a função exige.
Desafios e reconhecimento
Entre os momentos mais difíceis, Maycon cita os atendimentos envolvendo crianças, situações que exigem extrema sensibilidade. No entanto, ele afirma que o reconhecimento das famílias faz todo o esforço valer a pena, mesmo quando algumas não têm dimensão de todo o cuidado necessário antes do velório.
Apesar de ser uma profissão essencial, o agente funerário ainda enfrenta preconceito. "Normalmente perguntam: ‘mas tu só dirige, né?’, ‘tu mexe também?’, ‘tu abre o corpo?’. São muitas perguntas assim", contou.
Maycon costuma levar essas situações na esportiva, mas ressalta: "Tem gente que já tem preconceito só de ver o carro funerário [...] ser reconhecido pelo ótimo trabalho não tem dinheiro que compre. Quando a família agradece e diz que ficou bonito, isso é o melhor pagamento".
Organização e curiosidades sobrenaturais
A funerária onde Maycon trabalha mantém uma organização específica: atendimento em horário comercial de segunda a sexta-feira, com plantões concentrados nos finais de semana. Por lidar diretamente com corpos e ambientes de funerária, ele também ouve frequentemente perguntas sobre situações consideradas sobrenaturais.
"Não tenho medo. Mas já aconteceu de eu estar sozinho na funerária preparando e me chamarem pelo nome", revelou, compartilhando um episódio inusitado de sua trajetória.
Humanidade acima de tudo
Trabalhar diariamente com despedidas exige equilíbrio emocional. Para Maycon, a melhor forma de lidar com a dor das famílias é agir com humanidade. Algumas situações ficaram marcadas em sua memória, como a morte de uma criança após um ataque de cachorro.
Ele também presenciou despedidas que fogem do convencional, como um velório recente onde um cantor foi contratado para se apresentar durante a cerimônia. "A gente deixa a família à vontade quanto aos desejos do falecido e dos familiares. Cada despedida tem uma história", afirmou.
Transformação pessoal
Após quatro anos convivendo com histórias de perda e despedida, Maycon afirma que a profissão mudou sua forma de enxergar a vida. Momentos de gratidão, especialmente de famílias em situação vulnerável, mostram a verdadeira importância de seu trabalho.
"Já aconteceu de chegar família sem condições de pagar um procedimento de conservação e eu fazer sem cobrar. O melhor pagamento é o agradecimento", concluiu, destacando que a recompensa vai além do aspecto financeiro, residindo no impacto humano de seu serviço.
