Avião soviético abandonado há 20 anos em Ribeirão Preto aguarda destino após impasse judicial
Avião soviético abandonado há 20 anos em Ribeirão Preto (23.04.2026)

Avião soviético abandonado há 20 anos em Ribeirão Preto aguarda destino após impasse judicial

Um avião de pequeno porte fabricado na extinta União Soviética permanece abandonado há mais de duas décadas em uma área dentro do Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Trata-se de um jato modelo Yakovlev Yak-40, aeronave criada nos anos 1960 com capacidade para 40 passageiros, autonomia de três horas de voo e amplamente utilizada para transporte regional.

Características técnicas do Yakovlev Yak-40

O Yakovlev Yak-40 é composto por três motores a jato, possui aproximadamente 20 metros de comprimento, 25 metros de envergadura e seis metros de altura. Desenvolvido com foco na aviação regional, fez seu primeiro voo em outubro de 1966. A aeronave atinge velocidade de cruzeiro de cerca de 550 km/h, com alcance máximo de aproximadamente 1.800 quilômetros sem reabastecimento, e pode alcançar altitude máxima de 26 mil pés, equivalente a 8 mil metros.

Trajetória até o abandono em Ribeirão Preto

Em 2001, a aeronave foi adquirida de São Tomé e Príncipe, na África, pelo Clube Náutico Água Limpa, de Belo Horizonte. A entidade operou voos para destinos como Búzios, no Rio de Janeiro, e Foz do Iguaçu, no Paraná, até 2002, utilizando matrícula estrangeira Sierra 9 Bravo Alfa Papa.

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No ano seguinte, durante uma dessas viagens, o avião realizou um pouso não programado em Ribeirão Preto. Na ocasião, o antigo Departamento de Aviação Civil apontou irregularidades, resultando na apreensão definitiva pela Receita Federal. O motivo alegado foi o descumprimento de normas que permitiam o exercício de transporte em território nacional.

Destinação educacional e obstáculos financeiros

Em 2007, após a apreensão, a Receita Federal determinou a destinação do jato à Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, para fins educacionais. Contudo, a instituição nunca retirou a aeronave devido aos elevados custos envolvidos.

Segundo James Rojas Waterhouse, professor de engenharia aeronáutica da USP São Carlos, a operação para transportar o avião até a universidade custaria entre R$ 200 mil e R$ 300 mil, pois seria necessário desmontar a estrutura. "Ele é uma espécie de laboratório vivo para mostrar aos alunos tanto turbinas quanto sistemas hidráulicos", afirma Waterhouse, destacando o potencial educativo da peça.

Controvérsia judicial prolongada

Em 2013, o Clube Náutico Água Limpa obteve vitória na Justiça em ação que considerou a apreensão da aeronave irregular, afastando o argumento de que não estava regularmente nacionalizada. Cinco anos depois, em 2018, a entidade ajuizou nova ação pedindo indenização de R$ 1,5 milhão na Justiça Federal, além de R$ 280 mil para remover as peças do aeroporto. O processo ainda aguarda decisão definitiva.

"A apreensão da aeronave foi reconhecida como ilegal pelo Poder Judiciário, tendo sido anulados tanto o processo administrativo, quanto a pena de perdimento anteriormente aplicados pela União Federal", informou o clube por meio de nota enviada por seus advogados.

Estado atual e perspectivas futuras

Enquanto o impasse judicial persiste, a aeronave continua há mais de 20 anos em uma área atrás da base do Corpo de Bombeiros, no Aeroporto Leite Lopes. A estrutura sofreu desgaste significativo devido à exposição às intempéries e à ação do tempo, perdendo valor comercial.

Waterhouse explica que a transferência para a universidade enfrenta obstáculos práticos: "Ele precisa primeiro ser desmontado para depois poder ser embalado para transporte. A desmontagem, a embalagem de um avião desse e o transporte não é uma tarefa simples tampouco barata. A Universidade de São Paulo não tem recursos pra fazer um projeto desse tamanho. Estamos buscando já faz bastante tempo, mas até agora não logramos êxito em conseguir recursos para fazer essa transferência para o campus da universidade".

Assim, o jato soviético permanece como testemunho silencioso de uma história complexa que envolve questões legais, financeiras e logísticas, aguardando uma solução que parece cada vez mais distante.

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