Uma associação católica transformou o cultivo artesanal de café 100% arábica em uma das principais ferramentas de recuperação de dependentes químicos atendidos pela instituição em Jaci, no interior de São Paulo. Conhecido como Café Artesanal do Frei, o produto, torrado e moído, possui sabor suave e encorpado, sendo cultivado sem agrotóxicos e produzido pelos acolhidos da comunidade terapêutica como parte do processo de reabilitação.
História e impacto social
Fundada em 4 de outubro de 1985, há 40 anos, a Associação Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus atualmente produz cinco mil quilos de café por ano, comercializados inclusive para o Japão e países da Europa. A renda obtida com as vendas é revertida integralmente para as obras sociais e assistenciais mantidas pela fraternidade, que também produz mel e própolis.
Desde a fundação, mais de 50 mil pessoas de diversas regiões do país já passaram pela rede de acolhimento e recuperação mantida pela associação. De acordo com Anderson Santos, responsável pela instituição, o trabalho é considerado fundamental no processo terapêutico. "A busca da recuperação vem junto com a reconstrução do ser humano. E não tem como fazer essa reconstrução sem a reabilitação dele consigo mesmo, com o trabalho, porque ninguém sobrevive sem trabalho", afirmou.
O início e a produção
A entidade cristã, sem fins lucrativos, nasceu com a missão de acolher pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente dependentes químicos. A instituição define sua atuação como um trabalho voltado a "enfrentar, acolher, cuidar e se colocar no lugar daqueles que mais necessitam".
Segundo Anderson, o cultivo do café começou ainda com Frei Francisco Belotti, fundador da obra. O café era servido inicialmente para visitantes e, com o tempo, passou a despertar interesse. Diante da demanda, a fraternidade estruturou a produção e começou a comercializar oficialmente o produto. "As pessoas sempre falavam da qualidade desse café. Depois começaram a perguntar como poderiam adquirir. Foi aí que começamos a fazer a embalagem certinha e buscar a aprovação", explicou.
O produto recebeu certificação de café artesanal após avaliação técnica que considerou o manejo, a torrefação e os cuidados durante toda a produção. "O cultivo é feito sem utilização de agrotóxicos. Existe todo um cuidado na colheita, para não deixar o café cair no chão, além do controle na torrefação para manter a qualidade", detalha.
Trabalho e humanização
A associação destaca que o trabalho faz parte da metodologia aplicada no tratamento dos acolhidos. "A gente diz que a recuperação é como uma cadeira de quatro pernas: precisa da família, da espiritualidade, do trabalho e da rede de apoio. Sem o trabalho não há recuperação", disse o representante.
Além das comunidades terapêuticas, a fraternidade administra hospitais, ambulatórios, polos de saúde mental, casas de acolhimento e projetos sociais em diferentes estados do Brasil e também em países como Haiti, Portugal, Tanzânia e Japão. A associação também mantém hospitais no noroeste paulista, atendimento a pessoas em situação de rua e missões humanitárias na Amazônia e no Haiti.
Atualmente, a rede conta com cerca de 80 serviços de saúde e assistência social. Em 2024, foram registrados mais de 5,7 milhões de atendimentos ambulatoriais e internações, segundo dados da própria instituição.



