Polícia investiga falha humana e irregularidades em naufrágio no Encontro das Águas em Manaus
A polícia está investigando possíveis falhas humanas e irregularidades no naufrágio da embarcação de transporte de passageiros Lima de Abreu XV, ocorrido na última sexta-feira (13), próximo ao Encontro das Águas, em Manaus. O acidente resultou em duas mortes, incluindo uma criança e uma jovem de 22 anos, e deixou outras sete pessoas desaparecidas, em um cenário de desespero e superlotação.
Relato de sobrevivente: 30 minutos à deriva para salvar filho
A empresária Júlia Moraes, uma das sobreviventes, descreveu momentos de pânico ao g1. Ela relatou que a lancha, que saía de Manaus com destino a Nova Olinda do Norte, começou a bater fortemente nas ondas após passar pela área conhecida como "gelão". Passageiros pediram para o condutor reduzir a velocidade, mas ele teria respondido brincando, chamando a embarcação de "jato expresso que corre na água". Cerca de 20 minutos depois, a água invadiu a parte da frente, alagando rapidamente a lancha, que afundou em 15 minutos.
Superlotação e falta de equipamentos de segurança
Júlia destacou que a embarcação estava superlotada e não havia coletes salva-vidas para todos. Alguns dos disponíveis estavam em más condições, sem cordinhas para amarrar no pescoço. Durante o naufrágio, ela perdeu o filho de vista, mas conseguiu encontrá-lo no fundo e trazê-lo à superfície. Para mantê-lo vivo, colocou-o sobre um cooler e depois em uma boia, passando cerca de 30 minutos segurando-o acima da água até o resgate.
Cena de pânico e falta de socorro imediato
A sobrevivente descreveu uma cena de caos, com pessoas tirando coletes umas das outras para tentar se salvar. Ela testemunhou um homem se debatendo na água, que posteriormente foi encontrado morto. "É a pior sensação da face da terra. Um monte de crianças chorando, tomando água", afirmou. Júlia também relatou que a primeira embarcação que passou pelo local não prestou socorro, apenas registrou fotos e vídeos antes de seguir adiante.
Detenção do comandante e operações de busca
O comandante da lancha, José Pedro da Silva Gama, de 42 anos, foi detido em flagrante no porto de Manaus, mas foi liberado após pagamento de fiança. Ele responderá por homicídio culposo. A Marinha do Brasil mantém equipes nas buscas, empregando uma aeronave, uma embarcação do Batalhão de Operações Ribeirinhas e duas lanchas da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental. As operações continuam neste sábado (14), com apoio de mergulhadores e varredura nas margens dos rios.
Investigações em andamento
Foi instaurado um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN) para apurar as causas e responsabilidades do acidente. A Marinha coletou dados dos sobreviventes para auxiliar nas investigações. Vídeos obtidos pela Rede Amazônica mostram pessoas, incluindo crianças, em botes salva-vidas aguardando resgate, enquanto outras embarcações tentavam ajudar. Uma passageira gravou um vídeo à deriva, afirmando ter alertado o condutor sobre as ondas turbulentas, conhecidas como banzeiro.
O caso expõe graves questões de segurança no transporte marítimo regional, com a polícia focando em determinar se houve negligência ou irregularidades que contribuíram para a tragédia.