Campo Grande busca se tornar uma cidade multimodal, mas enfrenta obstáculos na mobilidade urbana
Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, enfrenta desafios significativos para avançar na mobilidade urbana e acompanhar o modelo de cidades multimodais, que prevê a integração de diferentes meios de transporte, como caminhada, bicicleta, ônibus, metrô e carros. Especialistas ouvidos em reportagem destacam que, apesar de alguns progressos, a cidade ainda necessita de investimentos robustos em infraestrutura, planejamento de longo prazo e educação no trânsito para facilitar o deslocamento dos moradores e reduzir a dependência do veículo particular.
O conceito de cidade multimodal e exemplos internacionais
Uma cidade multimodal é planejada para permitir que as pessoas utilizem vários meios de transporte de forma conectada e eficiente. Na prática, o sistema integra diferentes formas de deslocamento, incluindo caminhada em calçadas seguras, ciclovias e bicicletas compartilhadas, ônibus, metrô ou trem urbano, além de carros e aplicativos de transporte. O objetivo desse modelo é reduzir congestionamentos, diminuir a poluição, ampliar as opções de deslocamento e melhorar a qualidade de vida nas cidades. Em locais considerados referência, como Amsterdã, Tóquio e Barcelona, diferentes meios de transporte funcionam de maneira integrada, permitindo que os moradores combinem opções como sair de casa a pé, usar bicicleta, pegar um trem ou ônibus e completar o trajeto com transporte público ou compartilhado.
Infraestrutura e planejamento: limitações atuais em Campo Grande
Para especialistas, Campo Grande ainda apresenta limitações estruturais que dificultam a adoção do modelo multimodal. Marcos do Nascimento Rachid, especialista em infraestrutura de transporte, explica que alguns pontos da cidade já sofrem com retenção no trânsito e exigem intervenções planejadas para o futuro. Ele cita locais como a rotatória próxima à fábrica de refrigerantes perto da UFMS e a interseção da Mato Grosso com a Via Parque, que, em sua avaliação, já deveriam ter recebido obras mais complexas, como viadutos. "O viaduto evita muitos acidentes e também evita pontos de retenção. Quando planejamos uma obra dessa, pensamos nas próximas décadas", afirma Rachid, ressaltando que intervenções em infraestrutura envolvem também drenagem, paisagismo e urbanismo.
Dependência do carro e necessidade de alternativas
Outro desafio apontado é a forte dependência do transporte individual. Rachid destaca que a falta de sistemas de transporte coletivo de maior capacidade, como trens urbanos, metrô ou VLT, limita as opções de deslocamento. "Transporte coletivo apenas com ônibus é insuficiente. Nós precisamos de outras alternativas", ele afirma, enfatizando que o crescimento da cidade exige planejamento constante para evitar problemas futuros. Fernando Ernst, especialista em trânsito, complementa que investimentos em infraestrutura podem reduzir acidentes, estresse e até a pressão sobre o sistema de saúde, mas é crucial considerar o crescimento populacional e o aumento da frota veicular.
Ampliação de ciclovias e educação no trânsito
A ampliação de ciclovias é vista como um passo importante para melhorar a mobilidade urbana. Ernst ressalta que o uso da bicicleta é uma tendência mundial e pode ajudar a diminuir o número de veículos nas ruas, mas as ciclovias precisam ser conectadas e seguras para formar um sistema eficiente. Além disso, a educação no trânsito é fundamental. Ernst defende ações permanentes de conscientização, afirmando que "todos fazem parte do trânsito e o veículo maior cuida do veículo menor". Ele propõe um modelo de cidade educadora, com iniciativas contínuas para reduzir acidentes e promover comportamentos mais seguros.
Realidade dos moradores e perspectivas futuras
Quem vive o trânsito diariamente, como o motoentregador Éder da Silva Farias, sente os impactos das deficiências na mobilidade. Farias, que sofreu um acidente recentemente devido a buracos e falta de sinalização, relata que melhorias na infraestrutura, como faixas azuis para motociclistas em vias de alto fluxo, poderiam aumentar a segurança. Para os especialistas, Campo Grande ainda tem a oportunidade de crescer de forma planejada. Rachid enfatiza que decisões tomadas hoje podem impactar a cidade por décadas, e com investimentos adequados, a capital pode avançar na mobilidade urbana, oferecendo mais opções de deslocamento e melhorando a qualidade de vida para sua população.
