Moto: uma vítima a cada 3 horas no Walfredo Gurgel, em Natal
Moto: vítima a cada 3 horas no Walfredo Gurgel

O Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, maior unidade de saúde pública do Rio Grande do Norte, localizada em Natal, registra uma média de uma vítima de acidente de moto atendida a cada três horas. O dado alarmante faz parte do "Observatório de vigilância sobre violência no trânsito", divulgado nesta terça-feira (5) pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN).

Ferramenta de monitoramento

O documento foi incorporado ao sistema Protocolo Eletrônico do Paciente (PEP Mais RN) e entregue à Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap). Ele mapeia a situação do principal pronto-socorro do estado em relação ao recebimento de vítimas de trânsito, evidenciando a pressão constante sobre o hospital.

Segundo a Sesap, os dados mostram não apenas a intensidade da demanda, mas também a natureza ininterrupta desse fluxo, que impacta diretamente a capacidade operativa das equipes assistenciais, especialmente nas áreas cirúrgicas e de ortopedia. Além das perdas de vidas, os acidentes geram custos elevados para o sistema público de saúde.

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Quase 60 atendimentos por semana

O observatório aponta para uma média semanal de 58 atendimentos de vítimas de acidente de moto no Walfredo Gurgel. Essa aproximação com as quase 60 vítimas semanais é chamada no documento de "Barreira dos 60", o que causa preocupação.

“Na prática, o hospital recebe um novo trauma de motos a cada três horas, ininterruptamente. Qualquer variação acima sobrecarrega as salas de cirurgias e as equipes de ortopedia”, argumentou o pesquisador do LAIS Ricardo Valentim, um dos autores do relatório.

O documento revela que o hospital "opera no limite crítico de sua capacidade". O levantamento rastreia os números desde janeiro de 2025. O ápice de internações ocorreu em dezembro de 2025, com 304 internações no mês e um fluxo de 10 pacientes por dia, um aumento de 20%. O número mínimo foi em abril deste ano, com 211 casos.

Para o LAIS, o dado "mais alarmante" não é o total mensal, mas a cadência do trauma. "O hospital não tem 'respiro': a cada 180 minutos, o sistema de trauma é acionado para um novo motociclista", cita o documento.

Recomendações e medidas

O LAIS recomenda que a manutenção do estoque de órteses, próteses e materiais especiais seja calculada para atender à Barreira dos 60, "garantindo que, mesmo em semanas de desvio padrão positivo (picos de 65+ pacientes), o tempo de resposta cirúrgica não seja comprometido".

A Sesap informou que os investimentos em tecnologia da informação, como o observatório, permitem "um salto qualitativo na produção de informações" para análises mais robustas e confiáveis. A pasta afirma que isso fortalece a construção de estudos técnicos e oferece subsídios para a formulação de políticas públicas eficazes voltadas à redução da violência no trânsito.

"A violência no trânsito, por sua vez, já se consolida como uma grave questão de saúde pública. Além do impacto irreparável na perda de vidas, gera um elevado custo para o sistema público de saúde, mobilizando recursos humanos, estruturais e financeiros de forma contínua e crescente", cita a nota.

A Sesap ressalta que os dados do Walfredo Gurgel representam uma fração importante da realidade e devem ser compreendidos como um indicativo relevante, porém parcial, de um problema mais amplo, reforçando a necessidade de estratégias integradas e intersetoriais.

Contexto estadual

Um levantamento do Detran/RN de 2025 apontou que metade dos proprietários de motocicletas, ciclomotores, motonetas e triciclos não possui CNH, totalizando mais de 340 mil pessoas. O órgão também informou que o número de motos em circulação ultrapassou o de carros pela primeira vez na história do estado, com mais de 680 mil motocicletas registradas.

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do RN (Sesed) informou que mais de 60% das mortes fatais em acidentes de trânsito no estado em 2024 envolveram motocicletas. Em maio do ano passado, os atendimentos por acidentes de moto superaram, pela primeira vez, os registros por AVC e quedas, que historicamente lideravam o ranking de internações hospitalares.

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