Moradores do entorno do Memorial da América Latina denunciam barulho excessivo durante festival de metal
Residentes da região da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo, manifestaram forte insatisfação com o volume sonoro do Bangers Open Air, festival de metal que ocorreu entre sábado (25) e domingo (26) e contou com mais de 40 atrações nacionais e internacionais. O engenheiro ambiental Gabriel Lima Sejismundo, que vive há oito meses no local com a esposa, relatou à TV Globo que, embora já estivesse habituado ao movimento intenso da área, a situação do último fim de semana ultrapassou os limites aceitáveis. Segundo ele, o apartamento do casal chegou a tremer com a potência do som.
“A gente teve que fechar tudo, estava um calor insuportável, mais de 30 °C. Teve que fechar todas as janelas, e mesmo assim estava tremendo. Vimos o lustre do banheiro e janelas tremerem bastante. Aqui [no condomínio] tem muita criança, pet, e interfere muito na saúde deles”, afirmou o engenheiro. Ele acrescentou que, apesar de eventos serem frequentes na região, desta vez o volume teria excedido os padrões permitidos. “Tenho um medidor de decibéis e registramos picos de 80 dB. Pela ABNT, o limite nesse horário, entre 19h e 22h, é de 60 dB.”
Outro morador, o publicitário Rodolfo Oliveira dos Santos, contou que tentou evitar o incômodo passando o fim de semana fora, mas não conseguiu escapar do barulho. “A gente acaba gastando mais para sair de casa — cinema, teatro, jantar — para tentar ter conforto. Isso pesa no orçamento. Mesmo chegando tarde, fui dormir perto da 1h, porque ainda tinha gente animada e o som continuava”, relatou. Essa não é a primeira vez que eventos a céu aberto geram queixas na cidade. Em junho do ano passado, shows no Vale do Anhangabaú também provocaram reclamações de moradores do centro.
Tentativa de flexibilização dos limites de ruído
Há anos, a prefeitura de São Paulo tenta flexibilizar os limites de ruído para grandes eventos. Em dezembro de 2024, a gestão municipal incluiu alterações no Programa Silêncio Urbano (PSIU) por meio de um “jabuti”, ou seja, foi inserida em um projeto de lei que tratava de outro assunto, por meio de uma emenda a pedido do Executivo. O texto foi aprovado pela Câmara Municipal, mas, em setembro do ano passado, o Tribunal de Justiça de São Paulo declarou a mudança inconstitucional.
A prefeitura argumentou que as exceções ao PSIU seriam destinadas a atividades de alta relevância social, cultural e econômica, e que a decisão feria a autonomia municipal prevista na Constituição, além de impactar um setor que movimenta bilhões de reais na economia local. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde, em março, a ministra Cármen Lúcia rejeitou o recurso da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), mantendo a decisão de inconstitucionalidade.
Levantamento do SP1, com base em dados da prefeitura, aponta aumento de quase 18% nas reclamações por barulho no primeiro trimestre deste ano. Foram 12.849 registros entre janeiro e março de 2026, ante 10.902 no mesmo período de 2025. Em nota, a prefeitura informou que o evento tinha autorização para ocorrer no sábado e no domingo, das 11h às 23h, e que não localizou solicitações de fiscalização pelo PSIU durante os dois dias. O Memorial da América Latina afirmou que acompanhou os shows e que eles foram encerrados às 22h, em conformidade com a legislação e as diretrizes do espaço. A instituição declarou ainda que atua de forma responsável na promoção de eventos, buscando equilibrar as atividades com o bem-estar da vizinhança.



