Crise no transporte público paralisa frota de ônibus em Rio Branco
A crise no transporte coletivo de Rio Branco atingiu um novo patamar nesta quarta-feira, 22 de maio, quando motoristas decidiram paralisar totalmente a circulação de ônibus na capital acreana. A ação, motivada pela cobrança de salários e benefícios atrasados, escancarou um cenário de instabilidade que vem se agravando há meses, afetando diretamente milhares de passageiros que dependem do serviço.
Impacto imediato na população
Com a paralisação, o Terminal Urbano amanheceu vazio, forçando muitos usuários a recorrerem a alternativas particulares para seus deslocamentos. Dados revelam que, somente entre os dias 1º e 17 de abril, mais de 490 mil passageiros utilizaram o transporte coletivo na capital, destacando a dimensão do problema. A Empresa Ricco Transportes e Turismo, responsável pela operação emergencial do sistema, atribui a situação a uma combinação de fatores financeiros e administrativos.
Análise financeira da empresa
Em documento obtido, a Ricco detalha que, entre 1º e 20 de abril, arrecadou cerca de R$ 2,8 milhões, somando receitas de bilhetagem, subsídios e outros repasses. No entanto, as despesas no mesmo período chegaram a R$ 2,9 milhões, resultando em um déficit aproximado de R$ 64 mil. Os principais custos incluem combustível (R$ 1,15 milhão), peças e manutenção (R$ 481 mil), além de encargos trabalhistas e impostos.
A empresa aponta que o saldo negativo impediu o pagamento de despesas essenciais, com valores em aberto ultrapassando R$ 1,5 milhão. Isso abrange salários (R$ 574 mil), vale-alimentação (R$ 348 mil), rescisões e outros custos operacionais. Além disso, a Ricco sustenta que apenas 53,5% dos passageiros pagam a tarifa integral de R$ 3,50, enquanto 23,4% são estudantes com meia-passagem e 23,1% utilizam o sistema gratuitamente, o que reduz significativamente a receita.
Defasagem tarifária e repasses públicos
A empresa alega que a defasagem da tarifa, sem reajuste desde 2022, combinada com o aumento nos custos operacionais e a ausência de repasses integrais por parte da prefeitura, especialmente para gratuidades e meia-passagem estudantil, agrava a crise. Segundo a Ricco, a prefeitura repassou cerca de R$ 1,8 milhão em subsídios no período analisado, mas o valor devido, com base na tarifa técnica, seria de R$ 4,4 milhões, gerando uma diferença de aproximadamente R$ 1,5 milhão.
Outro fator crítico é o aumento expressivo no preço do diesel, que subiu de R$ 5,62 para R$ 7,61 em cerca de um mês, elevando as despesas diárias em cerca de R$ 11 mil. A empresa também relata perdas relacionadas à defasagem tarifária, gratuidades sem compensação e diferenças não pagas nas passagens estudantis.
Contratos emergenciais e licitação suspensa
Desde 2022, o transporte coletivo de Rio Branco é mantido por meio de contratos emergenciais sucessivos, após a saída da antiga operadora. A Ricco comunicou em fevereiro deste ano que não tinha interesse em renovar o contrato emergencial, mas decidiu manter a operação mesmo após o fim da vigência, alegando que a prefeitura publicou uma renovação sem sua concordância.
Em meio à crise, o edital da licitação do sistema de transporte público, que prevê operação por 10 anos e valor estimado em mais de R$ 1 bilhão, foi suspenso pela prefeitura após pedidos de esclarecimento e impugnação das empresas. A sócia-proprietária da Ricco, Bruna Fernandes Dias, criticou o modelo proposto, afirmando que a licitação "já nasceu morta" e que os valores recebidos atualmente são insuficientes para manter a operação e honrar compromissos com funcionários.
Negociações e busca por soluções
Após a paralisação, a prefeitura se reuniu com representantes dos trabalhadores e da empresa, acordando um prazo de 48 horas para buscar soluções que permitam a retomada do serviço. O prefeito Alysson Bestene (PP) afirmou que a gestão trabalha em medidas para normalizar o transporte e garantir o atendimento à população. A suspensão do edital foi explicada pelo secretário-adjunto de Gestão Administrativa, Erick Silva de Oliveira, como necessária para uma análise mais detalhada dos pedidos apresentados.
Esta crise evidencia os desafios estruturais no transporte público de Rio Branco, com impactos diretos na mobilidade urbana e na vida dos cidadãos, enquanto autoridades e empresas buscam caminhos para resolver a situação.



