Uma declaração do senador Flávio Bolsonaro sobre a composição de um eventual governo seu agitou o cenário político e foi recebida com entusiasmo nos bastidores do Palácio do Planalto. Ao afirmar que indicaria o irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, para comandar o Itamaraty, o parlamentar entregou um argumento poderoso à estratégia eleitoral do PT para as eleições de 2026.
Um atalho narrativo para o PT
Segundo avaliação de aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a fala de Flávio Bolsonaro, feita em 13 de janeiro de 2026, vai muito além de um mero ruído político. A declaração oferece um atalho perfeito para a campanha petista, que pretende transformar a próxima disputa presidencial em um plebiscito sobre o retorno do bolsonarismo ao poder.
Para os estrategistas do governo, a associação direta entre a candidatura do senador e o legado do ex-presidente Jair Bolsonaro é um trunfo. A possível indicação de Eduardo Bolsonaro para a chancelaria seria apresentada como símbolo de um retorno ao isolamento internacional e a uma política externa marcada por confrontos ideológicos, temas que o PT pretende explorar a fundo.
Descontentamento além da esquerda
O incômodo com a declaração, no entanto, não se limita aos adversários políticos. Setores economicamente importantes e historicamente alinhados ao bolsonarismo, como o agronegócio e a indústria, também veem com preocupação a hipótese de Eduardo no Itamaraty.
O motivo é a lembrança de episódios passados. O deputado esteve associado a momentos de tensão com parceiros comerciais do Brasil, especialmente durante o período de tarifas impostas pelos Estados Unidos. Na época, declarações suas sugerindo que empresários buscassem oportunidades no exterior causaram mal-estar entre exportadores e líderes do setor produtivo.
Para esses grupos, a condução da diplomacia por um nome identificado com posturas de confronto representa um risco direto à estabilidade das relações comerciais e, consequentemente, aos negócios.
Divisão aprofundada na direita
A fala do senador expôs e aprofundou ainda mais as rachaduras no campo conservador. Lideranças da direita avaliam que a insistência da família Bolsonaro em se manter no centro do projeto político dificulta a construção de uma candidatura capaz de dialogar com o centro, faixa do eleitorado considerada decisiva para qualquer vitória.
Nesse contexto, o nome do governador Tarcísio de Freitas segue sendo citado, nos bastidores, como uma alternativa mais competitiva contra Lula. A leitura entre dirigentes partidários é de que um candidato menos identificado com o chamado "bolsonarismo raiz" teria mais condições de criticar o governo atual sem reativar as altas rejeições que caracterizaram o pleito anterior.
Um erro de cálculo político
Para políticos experientes em Brasília, a declaração foi um claro equívoco de Flávio Bolsonaro. Ao atrelar explicitamente sua candidatura ao irmão e antecipar publicamente a composição de um governo hipotético, o senador não apenas forneceu munição gratuita ao adversário, como também reduziu sua própria margem de manobra eleitoral.
A conclusão, compartilhada por aliados e adversários, é unânime: em vez de ampliar seu espaço e atrair novos apoios, Flávio acabou reforçando exatamente o enquadramento que o PT desejava. A narrativa de que sua candidatura representa a continuidade pura e simples de um projeto que parte significativa do eleitorado já rejeitou nas urnas ganhou força com suas próprias palavras.
O episódio deixa claro que a disputa pelo Palácio do Planalto em 2026 já começou, e os movimentos iniciais podem definir os rumos da campanha muito antes do horário eleitoral.