Chile aposta em inteligência artificial local para superar preconceitos regionais
O Chile apresentou oficialmente nesta terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, o Latam-GPT, um ambicioso projeto de inteligência artificial desenvolvido especificamente para a América Latina. A iniciativa busca oferecer à região seu próprio modelo de IA, em um setor tradicionalmente dominado por gigantes tecnológicos dos Estados Unidos, China e Europa.
Uma resposta latino-americana à hegemonia tecnológica
Coordenado pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial do Chile (Cenia), o projeto representa um esforço coletivo para garantir que a diversidade cultural latino-americana seja adequadamente representada no cenário tecnológico global. Segundo o ministro da Ciência do Chile, Aldo Valle, a região "não pode ser apenas usuária ou receptora passiva dos sistemas de inteligência artificial", pois isso poderia levar à perda de tradições culturais importantes.
O Latam-GPT conta com uma ampla rede de colaboração que inclui:
- Universidades de vários países da região
- Fundações e bibliotecas
- Entidades governamentais
- Organizações da sociedade civil
Países como Chile, Uruguai, Brasil, Colômbia, México, Peru, Equador e Argentina já aderiram à iniciativa, demonstrando o caráter continental do projeto.
Características técnicas e funcionamento
Apesar do nome que remete a sistemas de conversação, o Latam-GPT não é um chatbot interativo. Trata-se de uma extensa base de dados treinada com informações específicas da América Latina, que servirá como fundamento para o desenvolvimento de aplicações tecnológicas adaptadas às necessidades regionais.
Para criar este modelo, foram processados mais de oito terabytes de informação, volume equivalente a milhões de livros digitais. O investimento inicial foi relativamente modesto: aproximadamente 550 mil dólares (cerca de 2,85 bilhões de reais), financiados principalmente pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), com complementação de recursos próprios e convênios institucionais.
Infraestrutura e desenvolvimento futuro
A primeira versão do Latam-GPT foi desenvolvida na nuvem da Amazon Web Services, mas os planos futuros são ainda mais ambiciosos. O projeto prevê a migração para um supercomputador que será instalado na Universidade de Tarapacá, no norte do Chile, com investimento de quase 5 milhões de dólares (aproximadamente 25,96 milhões de reais).
Segundo Álvaro Soto, diretor do Cenia, "os modelos desenvolvidos em outras partes do mundo, embora tenham dados da América Latina, representam uma proporção bastante pequena" da informação utilizada em seu treinamento. Esta lacuna é exatamente o que o Latam-GPT busca preencher.
Desafios e perspectivas realistas
Especialistas mantêm expectativas realistas sobre o potencial competitivo do projeto. Alejandro Barros, professor do Departamento de Engenharia Industrial da Universidade do Chile, afirma que "não há nenhuma possibilidade de que o Latam-GPT possa competir com os grandes modelos de IA" desenvolvidos com orçamentos que chegam a bilhões de dólares.
No entanto, o valor do projeto reside justamente em sua especificidade regional. O Latam-GPT será uma plataforma gratuita focada no desenvolvimento de aplicações tecnológicas "mais específicas para a região", conforme explica Soto.
Aplicações práticas e primeiros usuários
Entre as aplicações previstas estão ferramentas digitais para hospitais com problemas logísticos ou de utilização de recursos médicos, adaptadas às realidades dos sistemas de saúde latino-americanos.
A primeira empresa a utilizar o Latam-GPT será a chilena Digevo, que desenvolverá chats de conversação especializados em atendimento ao cliente para companhias aéreas e empresas de comércio. Roberto Musso, diretor da Digevo, destaca que a plataforma permitirá reconhecer "gírias, modismos e até a velocidade de falar" características da região, além de evitar "problemas de imparcialidade" presentes em outros modelos de IA.
Expansão linguística e cultural
Atualmente, as informações do modelo estão principalmente em espanhol e português, mas o objetivo de longo prazo inclui a incorporação de conteúdos em línguas indígenas do continente, ampliando ainda mais a representatividade cultural do projeto.
O Latam-GPT se junta a outras iniciativas regionais de inteligência artificial, como o SEA-LION do Sudeste Asiático e o UlizaLlama da África, demonstrando uma tendência global de desenvolvimento de tecnologias que respeitem e representem adequadamente as diversidades culturais locais.



