Data centers de IA no Brasil podem consumir energia de milhões de residências
Data centers de IA: consumo energético equivalente a milhões de casas

Data centers de inteligência artificial podem consumir energia equivalente à de milhões de residências brasileiras

Os data centers no Brasil poderão deixar de pagar impostos para importar equipamentos avançados caso um projeto discutido no Congresso Nacional seja aprovado. Batizado de Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), ele suspende tributos federais ao setor em troca de contrapartidas ambientais e de investimento. O benefício começou a valer em janeiro através de uma medida provisória publicada em 2025, com validade até esta quarta-feira (25). Para continuar em vigor, o texto precisa ser transformado em lei permanente.

O que é um data center e como funciona?

Um data center, ou centro de dados, é um local que armazena e processa informações digitais. Entre os tipos mais comuns, estão os de nuvem (cloud), que operam serviços online, e os de inteligência artificial, que treinam modelos de linguagem complexos. Essas instalações exigem equipamentos sofisticados que consomem grandes quantidades de energia elétrica e sistemas de refrigeração que podem utilizar água.

Defensores versus críticos do Redata

Os defensores da medida alegam que a suspensão do imposto de importação para data centers fará o Brasil se tornar um polo digital competitivo, reduzindo a dependência de infraestrutura estrangeira. A avaliação é que empresas terão menos custos para adquirir equipamentos avançados, geralmente fabricados na China, impulsionando o setor tecnológico nacional.

Por outro lado, críticos apontam que, em vez de trazer melhorias concretas, a medida pode levar a um consumo desenfreado de energia por essas instalações. Um levantamento realizado apontou que quatro projetos de data centers de IA no Brasil poderão ter consumo energético equivalente ao de 16,4 milhões de casas, levantando preocupações ambientais significativas.

Os requisitos do Regime Especial de Tributação

O Redata estabelece uma política que suspende tributos federais sobre faturamento e importação de equipamentos por data centers, desde que cumpram contrapartidas específicas:

  • Destinar ao menos 10% da capacidade de processamento para tratar dados do mercado brasileiro;
  • Consumir somente energia elétrica de fontes limpas ou renováveis;
  • Destinar 2% do valor dos equipamentos comprados para projetos de pesquisa no Brasil;
  • Manter índice de gasto de água de até 50 mL por quilowatt-hora consumido.

A isenção de impostos vale por cinco anos e pode ser suspensa, com exigência de pagamento retroativo, em caso de descumprimento das regras ambientais e de investimentos.

Impactos no mercado e investimentos

Procurado, o Ministério da Fazenda destacou um aumento do interesse de investidores pelo Brasil como destino para projetos de data centers. "Esse movimento tem sido evidenciado pelo crescimento no número de pedidos de conexão à rede elétrica e de solicitações de infraestrutura energética", afirmou em nota. A pasta ressaltou que diversos projetos aguardam a consolidação do marco legal para serem implementados, mas ainda não há impactos concretos porque a política está em vigor há menos de dois meses.

Eduardo Menossi, fundador da EBM Engenharia, especializada na construção de data centers, defendeu a transformação da medida provisória em lei permanente para dar segurança às empresas. "Todo mundo está esperando sem fazer nada porque tem medo de a lei mudar. O mercado está parado aguardando", afirmou.

Contudo, Luã Cruz, coordenador de Telecomunicações e Direitos Digitais do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), criticou a insuficiência das contrapartidas. "O governo está fazendo esforço para aprovar algo que não trará grandes benefícios para a ciência e a tecnologia brasileira. E a gente vai continuar dependente dessas grandes infraestruturas", avaliou.

Consumo massivo de energia e água

O governo federal reconhece que data centers têm um consumo massivo de energia e estima que, para atender aos novos projetos, a carga energética precisa crescer 600% até 2037. Em espaços voltados para IA, os equipamentos esquentam muito e dependem de sistemas de refrigeração adequados, que podem ser abastecidos com água.

Para manter o uso de água sob controle, o Redata prevê um índice de eficiência hídrica. As empresas que desejarem a isenção de impostos federais deverão consumir até 50 mL por quilowatt-hora consumido. O Scala AI City, um dos projetos já anunciados para o Brasil, projeta potência de 1.800 megawatts. No limite, um data center poderia usar 90 mil litros de água por dia, equivalente ao consumo de cerca de 560 pessoas no Brasil.

Soberania digital e dependência estrangeira

Além de reduzir impostos, o Redata prevê a agilização de processos de importação de equipamentos para data centers. Empresas beneficiadas não precisam passar por trâmites tradicionais e podem receber seus dispositivos mais rapidamente. Para o Ministério da Fazenda, ao reduzir custos e burocracia, o Redata deve tornar mais competitivo o processamento de dados no Brasil em relação a outros países.

"Isso pode favorecer a repatriação de dados hoje armazenados no exterior, com a meta de que, até 2030, cerca de 90% dos dados brasileiros estejam hospedados no país", disse a pasta. O próprio ministério afirmou em 2025 que o Brasil depende de empresas estrangeiras para tratar 60% de dados do país.

No entanto, o Redata exige que apenas 10% da capacidade de processamento seja destinada ao mercado nacional, o que faz a contrapartida ser considerada insuficiente por críticos. "Se é uma política que quer se dirigir ao problema de que dados dos brasileiros são tratados na Virgínia [EUA], não faz sentido estipular esse mínimo de apenas 10%. Tinha que ser muito maior", argumentou Cruz.

Há ainda críticas sobre temas que o Redata não aborda, como instalações a serem construídas próximas a terras indígenas. "Tem alguns pontos que não aparecem: participação social, proteção dos povos indígenas em comunidades tradicionais, consulta prévia no território onde os data centers serão instalados, a questão do barulho. O Redata não fala nada disso", completou o coordenador do Idec.