Estudantes de Mecânica transformam empatia em inovação com prótese 3D
Um gesto de solidariedade e criatividade marcou o curso de Mecânica da Escola Técnica Estadual (Etec) Francisco Garcia, localizada em Mococa, interior de São Paulo. Alunos utilizaram conhecimentos adquiridos em sala de aula para desenvolver uma prótese de mão feita em impressora 3D, tendo como inspiração direta a colega Maria Alice Francisco, de 18 anos, que nasceu sem parte do braço esquerdo.
Da ideia à realização: o nascimento do projeto Adaptamão
O projeto, batizado de Adaptamão, surgiu no final de 2024, quando a turma recebeu uma impressora 3D. Durante o aprendizado para manusear o equipamento, os estudantes buscaram criar peças diferentes e, em conversas, identificaram a oportunidade de ajudar Maria Alice. O professor orientador, Jayro do Nascimento Neto, incentivou a formação de grupos para explorar projetos, e a empatia coletiva tomou conta da sala.
"Quando foi falado para ajudar, todo mundo se uniu e falou que ia ajudar. Achei isso bem interessante, bem legal. Teve apoio de todos", recordou Maria Alice, emocionada com a mobilização dos colegas.
Desafios técnicos e colaboração multidisciplinar
O desenvolvimento da prótese não foi simples. Inicialmente, os materiais disponíveis para impressão não ofereciam flexibilidade, exigindo que os alunos pesquisassem filamentos específicos, não encontrados em Mococa. A jornada incluiu cerca de nove meses de testes em 2025, com diversas versões criadas e descartadas até chegar a um modelo funcional.
Os estudantes contaram com a colaboração da turma do curso Técnico de Química da mesma Etec para entender quais matérias-primas poderiam ser combinadas. A solução encontrada foi criar uma prótese com apoio acima do cotovelo, utilizando o movimento do bíceps para acionar tendões que movimentam os dedos, superando limitações de espaço e força.
Impacto social e emocional além da tecnologia
Para Maria Alice, que sempre foi reservada e escondia sua condição, o projeto representou uma transformação pessoal. "Eu nunca mostrava [o braço]. Para mim, é um pouco vergonhoso ainda. Estou no processo de viver isso, de mostrar", confessou. A participação ativa no desenvolvimento e o apoio dos colegas ajudaram-na a superar a timidez e a se integrar mais à turma.
O professor Jayro destacou a admiração pelo empenho coletivo: "A união dos alunos em prol de desenvolver um projeto com capacidade de ajudar alguém foi inspiradora".
Reconhecimento e planos ambiciosos para o futuro
O Adaptamão já coleciona conquistas, incluindo o segundo lugar no Desafio Learning Sectors: Acelerando no Circuito da Aprendizagem, organizado pelo British Council, e participação na 16ª Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps). Mas os planos não param por aí.
Maria Alice, que também cursa Eletrotécnica, pretende adicionar automação à prótese, utilizando arduino e servo motores para permitir o movimento dos dedos com um simples toque de botão, reduzindo o esforço físico. "Nossa ideia é colocar cinco servos, um para cada fiozinho, para que ele puxe sem precisar de esforço do braço", explicou.
Inclusão acessível: baixo custo e propósito social
Um dos aspectos mais notáveis do projeto é seu custo acessível. Segundo cálculos do professor, incluindo produção, energia e futura automação, uma prótese funcional pode ser entregue por menos de R$ 300. O objetivo não é patentear ou vender o protótipo, mas evoluir o processo para estabelecer parcerias com ONGs e ajudar mais pessoas que necessitam de tecnologia assistiva.
"Gostei muito de participar porque pretendo ajudar outra pessoa que passou pela mesma situação que eu. Estou muito feliz com o projeto", afirmou Maria Alice, destacando o caráter inclusivo e solidário da iniciativa.
O caso da Etec de Mococa exemplifica como a educação técnica pode unir inovação, empatia e responsabilidade social, criando soluções que transformam vidas e fortalecem comunidades.



