Um novo áudio obtido pelo Grupo RBS revela que o policial militar Cristiano Domingues Francisco, principal suspeito pelo desaparecimento da ex-mulher, Silvana de Aguiar, e dos pais dela, referiu-se a ela como "megera" e afirmou que sua "paciência acabou". A gravação foi enviada por ele à sua atual companheira no dia 2 de janeiro, semanas antes do crime, de acordo com a polícia.
O áudio do suspeito
No áudio, Cristiano relata uma discussão com Silvana sobre o filho do casal, um menino de 9 anos. "Falei com a megera. [...] Já batemos boca, já se 'xinguemos' [...]. Assim, ó, acabou minha paciência", diz o policial na mensagem. O advogado de defesa, Jeverson Barcelos, afirma que seu cliente é inocente e que ainda está tendo acesso ao material da investigação, incluindo o novo áudio.
Áudio da vítima
Dias antes de desaparecer, Silvana de Aguiar enviou um áudio a uma amiga, de acordo com a Polícia Civil. Nele, chama Cristiano de psicopata. O conteúdo foi obtido com exclusividade pela reportagem. "O pai do [nome do filho deles] é psicopata, o [irmão do suspeito] é maquiavélico, e hoje eu entendi o que a madrasta é também, maquiavélica", disse. "Viu que ela é totalmente falsa ali. Muito querida. É uma maquiavélica."
Uso de inteligência artificial
De acordo com a investigação, o PM usou uma ferramenta de inteligência artificial para simular a voz de Silvana e atrair os pais dela. Segundo a polícia, ele matou ambos depois de atraí-los com um falso pedido de ajuda de Silvana. A mulher já estava desaparecida quando ele enviou os áudios. A reportagem consultou duas ferramentas de detecção de IA: a Hiya Deepfake Voice Detector e a undetectable.AI, que concluíram ser altamente provável que os áudios tenham sido gerados com inteligência artificial.
Transcrição dos áudios falsos
Confira a transcrição dos áudios gerados com IA:
- "Mãe, eu me acidentei no carro de uma amiga. Eu fui dar uma volta com ela e capotou o carro. Estamos no hospital."
- "Oi mãe, oi pai, é a Silvana, cheguei bem em casa, mas dei um probleminha aqui em casa, um fio de luz entrou em curto aqui na sala de casa e quase pegou fogo, pede para o pai vir aqui em casa me dar uma ajuda, será que o pai consegue vir aqui me dar uma ajuda rapidinho? É coisa rápida, mas eu sozinha não consigo cortar o fio, é só cortar o fio mesmo pouca coisa ele está para fora da parede, só para não dar choque mesmo que daí amanhã já resolvo, só trazer um alicate para cortar o fio e já está bom."
- "Pode deixar que eu ligo para ele para falar sobre isso. Mas pode entregar, sim. Amanhã resolvo. Deixa eu arrumar esse negócio da luz primeiro. O pai não conseguiu resolver aqui. Daí o Cristiano vai arrumar. Eu liguei para ele. Pois foi ele quem tinha feito essa elétrica. Daí ele vai pegar uns fios de luz que tem sobrando na peça das ferramentas. O pai explicou pra ele onde tá."
- "Daí o Cristiano tá indo aí agora pra pegar. Pode alcançar pra ele que ele tá ajudando nós. Pode ficar tranquila que ele tá indo aí. A mãe, eu não quero saber de picuinha. Só quero que ele resolva isso aqui. E deu, o pai tem que ir pra casa também."
- "Tá, deixa então, não precisa ajudar, eu me viro sozinha. Tem mais é que pedir para os outros estranhos ajudar mesmo, porque os de casa não podem..."
- "Meu telefone está travando muito, eu mexi de tarde. Num aplicativo, daí ficou bem ruim. Vou ter que levar para arrumar, está trancando muito. Está muito ruim de falar nele."
Indiciados e crimes
A investigação apontou que seis pessoas são suspeitas de cometerem nove diferentes crimes. O inquérito policial indiciou Cristiano por feminicídio contra Silvana e dois homicídios contra Isail e Dalmira — além dele, outras cinco pessoas foram indiciadas. Cristiano foi indiciado por nove crimes:
- Feminicídio – Pena: Reclusão, de 20 a 40 anos;
- Duplo Homicídio Triplamente Qualificado – Pena: Reclusão, de 12 a 30 anos;
- Ocultação de Cadáver – Pena: Reclusão, de 1 a 3 anos, e multa;
- Abandono de Incapaz – Pena: Reclusão, de 2 a 5 anos;
- Falsidade Ideológica – Pena: Reclusão, de 1 a 5 anos;
- Furto Qualificado – Pena: Reclusão, de 2 a 8 anos, e multa;
- Fraude Processual – Pena: Detenção, de 6 meses a 4 anos, e multa;
- Falso Testemunho – Pena: Reclusão, de 2 a 4 anos, e multa;
- Associação Criminosa – Pena: Reclusão, de 1 a 3 anos.
Outros indiciados
Milena Ruppenthal Domingues, atual esposa de Cristiano, foi indiciada por ocultação de cadáver, furto qualificado, falso testemunho, fraude processual e associação criminosa. "Ao que tudo indica, participou do pós-crime, manipulando dados e conduzindo depoimentos. Ela seria uma peça fundamental. Há indicativos de que ela excluiu contas. Inclusive, o próprio aplicativo de clonagem de voz foi descredenciado quando o autor já estava preso. Então, ela tinha o conhecimento desse aplicativo e realizou o descredenciamento para tentar encobrir essa evidência", afirmou o delegado Diego Traesel, diretor da Divisão de Inteligência Policial e Análise Criminal.
Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano, foi indiciado por ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa. "Eles (Cristiano e Wagner) somem em um período crítico e os próprios familiares ficam sem contato com ambos por cerca de 13 horas. Somado ao fato de o DNA dele ter sido encontrado junto ao telefone da vítima, nos leva a crer que ele tenha participado nessa ocultação", afirma Traesel.
Paulo da Silva, amigo de Cristiano, foi indiciado por falso testemunho, fraude processual e associação criminosa. "Esse amigo próximo da vítima, que tinha conhecimento de informática, concorreu nessa fraude estabelecida, nessa limpeza de evidências, apagando conteúdos", afirmou Traesel.
Maria Rosane Domingues Francisco, mãe de Cristiano, foi indiciada por fraude processual e associação criminosa. A mãe do principal suspeito do crime teria participado da retirada de HDs de sua própria casa e "manipulado mensagens coordenadamente para que dados fossem apagados e conteúdos fossem removidos", aponta a polícia.
Ivone Ruppenthal, sogra de Cristiano, foi indiciada por fraude processual e associação criminosa. Ivone é mãe de Milena, atual esposa de Cristiano. "Também tem participação nessa ação coordenada de apagar vestígios e encobrir os rastros", diz Traesel.
O que dizem as defesas
Cristiano Domingues Francisco: "A Defesa de Cristiano aguarda o encaminhamento do inquérito, sendo que, pela finalização das investigações, deverá ter acesso amplo e irrestrito a todos os procedimentos cautelares que se encontram em segredo de justiça, possibilitando um posicionamento mais assertivo."
Milena Ruppenthal Domingues (mulher de Cristiano), Paulo da Silva (amigo de Cristiano), Maria Rosane Domingues Francisco (mãe de Cristiano) e Ivone Ruppenthal (sogra de Cristiano): "A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone informa que, ao longo do regular trâmite processual, será devidamente demonstrada — com a garantia do contraditório e da ampla defesa — a inocência dos envolvidos, bem como a fragilidade dos indícios apresentados no inquérito policial. Ressalta-se, ainda, que serão levadas ao conhecimento do Poder Judiciário as irregularidades ocorridas durante a investigação, somadas a eventuais abusos praticados, os quais serão oportunamente apurados pelos meios legais cabíveis. A defesa reitera sua confiança na Justiça e no devido processo legal, certos de que os fatos serão esclarecidos de forma técnica e fundamentada. Declaram-se absolutamente inocentes das acusações."
Wagner Domingues Francisco (irmão de Cristiano): "A Defesa técnica de WAGNER DOMINGUES FRANCISCO, com o senso de responsabilidade que o momento exige, vem a público manifestar-se acerca do Inquérito Policial que apura as circunstâncias envolvendo o desaparecimento da família Aguiar, no município de Cachoeirinha/RS. A Defesa tomou conhecimento, exclusivamente por intermédio da mídia e de coletiva de imprensa, da existência de 37 medidas cautelares, além de buscas, apreensões e indiciamentos, sem que lhe tenha sido assegurado, até o presente momento, acesso aos respectivos expedientes, circunstância que impede o pleno conhecimento das teses investigativas. Importa destacar que as imputações até então divulgadas consistem, neste estágio, em meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório, sendo o inquérito policial, por sua natureza, procedimento de caráter unilateral. Reitera-se, por fim, que WAGNER DOMINGUES FRANCISCO sempre esteve, e assim permanecerá, à inteira disposição das autoridades. A Defesa aguarda o acesso integral aos elementos de prova para manifestação oportuna e aprofundada, confiante de que o devido processo legal conduzirá ao pleno esclarecimento dos fatos, com a consequente demonstração de sua inocência e a prevalência da Justiça."
Relembre o caso
O g1 montou a linha do tempo que detalha os principais acontecimentos da investigação. Confira:
Antes do sumiço
- 2 de janeiro: Silvana Germann de Aguiar solicita, em um grupo de mensagens, o contato do Conselho Tutelar;
- 9 de janeiro: Silvana comparece ao Conselho Tutelar para registrar que seu ex-marido, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, desrespeitava as restrições alimentares do filho do ex-casal.
O fim de semana dos desaparecimentos
- 24 de janeiro (sábado): Silvana é vista pela última vez. Uma publicação em seu perfil nas redes sociais dizia que ela havia sofrido um acidente em Gramado, mas que estava bem. Segundo a polícia, o acidente nunca aconteceu e o objetivo da postagem seria despistar o desaparecimento. Imagens de uma câmera de segurança registraram uma movimentação atípica de veículos na noite de 24 de janeiro: às 20h34, um carro vermelho entra na residência de Silvana e sai oito minutos depois; às 21h28, o veículo branco de Silvana entra na garagem da casa; às 23h30, outro automóvel chega ao local, permanece por 12 minutos e vai embora.
- 25 de janeiro (domingo): Alertados por vizinhos sobre a postagem, os pais de Silvana, Isail e Dalmira Aguiar, saem para procurar a filha. O casal de idosos tenta registrar o desaparecimento na delegacia distrital, mas a unidade estava fechada. Segundo a Polícia Civil, após saírem da delegacia, os idosos seguiram para a residência do ex-genro, Cristiano. Em depoimento prestado inicialmente como testemunha, o policial afirmou que o casal teria pedido ajuda para procurar Silvana, já que ele é policial militar. Ele teria dito que estava preparando o almoço e que auxiliaria mais tarde. Ainda conforme a investigação, após a visita, os idosos teriam retornado para casa e, horas depois, teriam sido vistos por vizinhos entrando em um carro não identificado, de cor desconhecida. Desde então, não foram mais vistos.
Início das investigações
- 27 e 28 de janeiro: As ocorrências de desaparecimento são registradas formalmente. O ex-marido, Cristiano Domingues Francisco, comunica o sumiço de Silvana, e uma sobrinha informa à polícia que os idosos também não foram mais vistos;
- 28 de janeiro: Cristiano comparece ao Conselho Tutelar para pedir que o filho fique sob sua guarda durante as investigações;
- 1º de fevereiro: Cristiano envia uma foto de dentro da casa dos sogros para uma conhecida, mostrando o veículo do casal;
- 3 de fevereiro: A polícia ouve seis pessoas, incluindo o ex-marido e sua atual companheira. Um projétil de arma de fogo é encontrado no pátio da casa dos idosos;
- 4 de fevereiro: A Polícia Civil confirma que trata o caso como crime, descartando sequestro por falta de pedido de resgate.
Perícias e prisão
- 5 de fevereiro: A perícia coleta material na casa de Silvana, encontrando vestígios de sangue no banheiro e na área externa;
- 7 de fevereiro: O celular de Silvana é localizado após denúncia anônima, escondido sob uma pedra em um terreno baldio próximo à casa dos pais;
- 9 de fevereiro: Reunião de autoridades confirma que o cartucho encontrado na casa dos idosos é de festim (munição não letal);
- 10 de fevereiro: Cristiano Domingues Francisco é preso temporariamente após quebra de sigilo telefônico indicar movimentação suspeita. A reportagem tem acesso a áudios nos quais ele estaria tentando interferir na investigação. Familiares e amigos realizam um protesto e caminhada em Cachoeirinha pedindo solução para o caso. O filho de Silvana é encaminhado para a casa dos avós paternos;
- 13 de fevereiro: É divulgado que o suspeito e sua atual companheira se recusaram a fornecer as senhas de seus aparelhos;
- 20 de fevereiro: O policial militar prestou depoimento à polícia. De acordo com a defesa, Cristiano ficou em silêncio. Polícia confirma que o mesmo carro entrou duas vezes na residência de Silvana no dia em que ela desapareceu. Contudo, não foi possível identificar a placa. Assim, não se sabe quem é o proprietário;
- 24 de fevereiro: A perícia do celular Silvana mostrou que o aparelho nunca esteve em Gramado, diferente do que indicava a publicação feita em 24 de janeiro em suas redes sociais;
- 24 e 25 de fevereiro: O desaparecimento da família Aguiar completa um mês. Buscas com cães são realizadas;
- 25 de fevereiro: Silvana é considerada a 20ª vítima de feminicídio no RS em 2026;
- 26 e 27 de fevereiro: Polícia Civil realiza buscas pelos corpos em áreas de matas e rios próximos a Cachoeirinha;
- 9 de março: Prisão de PM suspeito do desaparecimento é prorrogada por 30 dias;
- 13 de março: Bombeiros realizam mais trabalhos de busca em áreas rurais da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os agentes usam cães farejadores;
- 24 e 25 de março: O desaparecimento da família Aguiar completa dois meses;
- 9 de abril: Justiça decreta a prisão preventiva do policial militar Cristiano Domingues Francisco.



