Farmácias vendem quase meio milhão de canetas emagrecedoras em janeiro, revela Anvisa
Venda de canetas emagrecedoras atinge meio milhão em janeiro

Vendas de medicamentos para emagrecimento disparam no Brasil

As farmácias brasileiras registraram a venda de quase meio milhão de caixas de canetas emagrecedoras apenas no mês de janeiro de 2026, conforme revelam dados inéditos do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O levantamento exclusivo da Folha de S. Paulo aponta que foram comercializadas exatamente 443.815 unidades desses medicamentos, com predominância do público feminino, que apresenta idade média de 47 anos.

Liderança do Mounjaro e participação do Wegovy

O medicamento Mounjaro respondeu por impressionantes 52,8% de toda a comercialização, correspondendo a 234 mil caixas vendidas. Em segundo lugar ficou o Wegovy, com participação de 24,8% no mercado. A base de dados do SNGPC, que estava suspensa desde o final de 2021, voltou a ser obrigatória em 2025, tornando janeiro de 2026 o primeiro mês com informações disponíveis sobre esse setor específico da farmacologia.

Além do Mounjaro e Wegovy, também foram contabilizadas vendas do Ozempic e do Rybelsus, este último sendo o único disponível em formato de comprimido com propriedades semelhantes. A reportagem considerou especificamente os medicamentos agonistas do hormônio GLP-1, que ativam essa substância no organismo e são indicados para tratamento de obesidade e diabetes tipo 2.

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Perfil dos consumidores e distribuição geográfica

A idade média dos compradores mostra pequena diferença entre gêneros: 47 anos para mulheres e 46 anos para homens. A faixa etária predominante em ambos os sexos ficou entre 40 e 49 anos, respondendo por 26,5% do total de vendas. Geograficamente, a região Sudeste concentrou 60,4% de todas as aquisições, equivalente a 268.155 caixas, apesar de representar apenas 41,6% da população nacional.

O Distrito Federal emergiu como a unidade da federação com maior consumo proporcional, registrando 508 caixas por cada 100 mil habitantes. A maioria esmagadora das medicações (98,1% do total) foi prescrita por médicos com registro no Conselho Regional de Medicina, enquanto uma pequena parcela teve receita de outros profissionais habilitados, incluindo 223 prescrições de médicos veterinários.

Preocupações com segurança e uso off-label

A Anvisa identificou que 32% das notificações de eventos adversos relacionados a produtos com semaglutida estão associadas ao uso não previsto em bula ou não aprovado, taxa significativamente superior à média global de 10% apontada pela Organização Mundial da Saúde. A agência reguladora reconhece que podem ocorrer erros de digitação no sistema e prescrições fora das especificações técnicas, conhecidas como uso "off-label".

Preocupantemente, a base de dados registrou 3.296 vendas para pessoas com idade inferior à mínima recomendada nas bulas, que é de 12 anos para liraglutida e 18 anos para semaglutida e tirzepatida. Especialistas alertam que as consequências de longo prazo desses medicamentos ainda são desconhecidas, uma vez que se tratam de produtos relativamente recentes no mercado.

Impacto econômico e perspectivas futuras

Os preços desses medicamentos representam investimento considerável: uma caixa de Mounjaro na dosagem de 2,5mg custa pelo menos R$ 1.500, enquanto o Ozempic na dose de 0,25mg sai por R$ 963, equivalente a 60% do salário mínimo brasileiro. Kesley Gomes, diretora da Worldpanel by Numerator, revela que 45% dos consumidores pertencem a classes sociais mais altas.

Com a queda da patente da semaglutida (princípio ativo do Ozempic) em março de 2026, especialistas projetam popularização ainda maior desses medicamentos no médio prazo. O fim da exclusividade deve permitir entrada de novos fabricantes no Brasil, com expectativa de redução de preços e ampliação do perfil dos pacientes. "Além da queda de patente, os conhecimentos sobre os benefícios do uso estão se expandindo e podem ser fio condutor de um comportamento de massa", avalia Gomes.

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Maria Edna Melo, endocrinologista e coordenadora na Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), explica que a contagem por número de caixas reflete a natureza individualizada do tratamento: "Tem pacientes que compram uma caneta que serviria por um mês em um caso, e eles podem usar por mais tempo porque precisam de uma dose menor".

A base do SNGPC, embora limitada a um único mês e sem individualizar pacientes, representa o primeiro registro em dados públicos do mercado legal desses medicamentos no país, oferecendo visão preliminar sobre o consumo crescente desses produtos no Brasil.