Tributação agressiva de ultraprocessados pode evitar 1,8 milhão de doenças crônicas no Brasil
Tributação de ultraprocessados pode evitar 1,8 milhão de doenças

Política fiscal contra alimentos ultraprocessados pode salvar vidas e reduzir doenças no Brasil

O Brasil enfrenta uma projeção alarmante: se mantida a trajetória atual, três em cada quatro adultos estarão com excesso de peso até 2044. Diante desse cenário, pesquisadores brasileiros realizaram uma simulação inédita sobre os impactos de uma política fiscal mais agressiva contra alimentos ultraprocessados. Os resultados são impressionantes: um aumento de 50% no preço desses produtos poderia evitar aproximadamente 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas e até 236 mil mortes ao longo de duas décadas.

Metodologia conservadora revela benefícios substanciais

O estudo, publicado na renomada American Journal of Preventive Medicine, utilizou modelagem matemática baseada em dados brasileiros de consumo alimentar e saúde populacional. A pesquisa partiu do conceito de elasticidade-preço, que mede quanto o consumo tende a cair quando os preços aumentam. A partir dessa redução estimada no consumo, o modelo projetou impactos graduais sobre o peso corporal e, consequentemente, sobre doenças crônicas ao longo do tempo.

Atualmente, 57% dos adultos brasileiros vivem com sobrepeso. No cenário de taxação mais elevada, essa prevalência cairia para 50%, representando uma reversão significativa na tendência de crescimento. Eduardo Nilson, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), destaca que a abordagem foi deliberadamente conservadora: "Trabalhamos buscando subestimativas. Estamos falando só de doenças mediadas pelo excesso de peso. O impacto real pode ser maior."

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Redução do peso médio impacta múltiplas doenças

A diminuição do peso médio da população não é um dado isolado. Ela repercute diretamente sobre diversas condições de saúde associadas ao excesso de peso, incluindo:

  • Diabetes tipo 2
  • Doenças cardiovasculares
  • Doença renal crônica
  • Alguns tipos de câncer relacionados ao índice de massa corporal elevado

A análise considerou apenas enfermidades mediadas pelo excesso de peso, excluindo possíveis efeitos dos ultraprocessados independentes do índice de massa corporal, o que reforça o caráter conservador das projeções.

Contexto atual da tributação no Brasil

A discussão ganha relevância prática porque o Brasil recentemente aprovou o chamado Imposto Seletivo, que entrará em vigor a partir de 2027. A medida incidirá sobre produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas, mas os ultraprocessados como categoria ampla ficaram de fora da tributação.

Durante o debate da reforma tributária, houve propostas para incluir alimentos industrializados como biscoitos recheados, salgadinhos, embutidos e macarrão instantâneo, mas a ideia não avançou no Congresso Nacional. Nilson comenta sobre o processo político: "Houve uma força de lobby atuando tanto no Executivo quanto no Legislativo para restringir o imposto e excluir os ultraprocessados. Em determinado momento, até as bebidas açucaradas quase ficaram de fora."

O que são alimentos ultraprocessados e seu consumo no Brasil

Ultraprocessados são formulações industriais feitas majoritariamente a partir de substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas em laboratório, combinadas a aditivos como aromatizantes, emulsificantes e estabilizantes. Esta definição segue a classificação NOVA, desenvolvida por pesquisadores brasileiros.

No Brasil, cerca de 20% das calorias consumidas já vêm desse grupo alimentar. Entre crianças e adolescentes, a participação é ainda maior, levantando preocupações sobre exposição precoce. Nilson alerta: "Há crianças consumindo ultraprocessados antes mesmo de completar um ano, quando a recomendação é evitar até os dois. Essa exposição precoce antecipa o risco de obesidade, hipertensão e diabetes."

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Impacto econômico e necessidade de políticas integradas

Além da redução de mortes e casos de doenças, o pesquisador afirma que o efeito projetado teria repercussão direta sobre os gastos em saúde. Embora os cálculos econômicos não tenham sido detalhados no artigo, as estimativas indicam economia potencial na casa dos bilhões de reais ao longo das duas décadas analisadas.

"Estamos falando de doenças crônicas que exigem tratamento contínuo, internações e medicamentos de alto custo. A redução desses casos inevitavelmente se traduz em economia significativa para o sistema de saúde", explica Nilson.

Se mantida a tendência atual, o país pode acumular mais de 10 milhões de novos casos de doenças crônicas atribuíveis ao excesso de peso nas próximas duas décadas, além de mais de 1 milhão de mortes associadas. Para o pesquisador, a tributação não deve atuar isoladamente, mas como parte de um conjunto de políticas que inclua estímulos a alimentos in natura e medidas que tornem escolhas mais saudáveis mais acessíveis.

O debate sobre o imposto seletivo transcende questões meramente tributárias. Ele envolve fundamentalmente o tipo de ambiente alimentar que o país deseja construir e os custos humanos e econômicos de manter a trajetória atual de consumo de alimentos ultraprocessados.