Estudo alerta sobre risco de excesso de medicamentos após alta hospitalar e reforça Critérios de Beers
Risco de excesso de medicamentos após alta hospitalar e Critérios de Beers

Estudo revela riscos do excesso de medicamentos após alta hospitalar e reforça diretrizes de segurança

Um novo estudo publicado recentemente trouxe à tona uma preocupação crucial para a saúde pública: o risco do excesso de medicamentos após uma alta hospitalar. Os achados da pesquisa reforçam, de maneira contundente, a importância da revisão sistemática da medicação e da prática da desprescrição, que consiste na retirada de fármacos desnecessários, para otimizar os resultados da reabilitação de pacientes, especialmente idosos.

Os Critérios de Beers: uma diretriz global para prescrições seguras

Nesse contexto, ganha destaque novamente um tema já abordado em colunas anteriores: os Critérios de Beers. Criada pela Sociedade Americana de Geriatria em 1991, essa é uma das diretrizes mais respeitadas em todo o mundo para orientar prescrições seguras voltadas para a população idosa. O objetivo principal não é proibir o uso de remédios, mas alertar sobre os chamados Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPIs), cujos riscos frequentemente superam os benefícios em pacientes mais velhos.

Em 2023, a lista passou por uma significativa atualização, consolidando-se como um instrumento essencial para médicos e profissionais de saúde. Segue um resumo das principais categorias e orientações que estão atualmente em vigor:

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Medicamentos que devem ser evitados em idosos

Medicamentos com alto risco de efeitos colaterais ou eficácia limitada:

  • Anti-histamínicos de primeira geração, como hidroxizina ou dexclorfeniramina, que podem causar confusão mental, boca seca, retenção urinária e aumentar o risco de quedas.
  • Antinflamatórios não esteroides (AINEs), como diclofenaco e ibuprofeno, que apresentam alto risco de sangramento gastrointestinal.
  • Benzodiazepínicos, como diazepam e alprazolam, que aumentam drasticamente o risco de quedas, fraturas, sedação excessiva e delirium.
  • Sulfonilureias de longa duração, como glibenclamida, associadas a alto risco de hipoglicemia grave e prolongada.

Medicamentos a serem evitados em doenças específicas

A diretriz também lista interações preocupantes entre fármacos e condições clínicas pré-existentes:

  • Insuficiência cardíaca: evitar certos bloqueadores de canais de cálcio e AINEs, pois podem provocar retenção de líquidos e piorar a insuficiência.
  • Histórico de quedas: evitar antipsicóticos, antidepressivos e anticonvulsivantes, que afetam o equilíbrio – a menos que não haja alternativa terapêutica.
  • Comprometimento cognitivo: evitar medicamentos com forte efeito anticolinérgico ou sedativo, que agravam a confusão mental.

Medicamentos que exigem uso cauteloso e monitoramento rigoroso

Algumas substâncias são permitidas, mas demandam atenção redobrada:

  • Aspirina: para a prevenção primária de doenças cardiovasculares em pessoas muito idosas, o risco de sangramento pode ser maior que o benefício cardíaco.
  • Diuréticos: podem acarretar desequilíbrios eletrolíticos graves, como queda de sódio ou potássio no organismo.

Interações medicamentosas de alto risco

Combinações perigosas que aumentam significativamente o risco de hospitalização:

  • Varfarina + AINEs: risco altíssimo de hemorragia.
  • Lítio + diuréticos: risco elevado de toxicidade pelo lítio.

Na lista atualizada de 2023, a varfarina se tornou um medicamento a ser evitado no início do tratamento de certas condições – a opção recomendada são os novos anticoagulantes orais, como apixabana – devido ao alto risco de sangramento. Em relação ao diabetes, houve um alerta mais rígido contra todas as sulfonilureias, pelo risco prolongado de hipoglicemia grave em idosos.

Além disso, reforçou-se a cautela no uso de aspirina para prevenção primária (em pacientes que nunca tiveram evento cardíaco), pois o risco de sangramento estomacal ou cerebral supera os benefícios após os 60-70 anos de idade.

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A polifarmácia e seus impactos na reabilitação

É fundamental lembrar que a polifarmácia, definida como o uso de cinco ou mais remédios simultaneamente, frequentemente inclui itens listados nos Critérios de Beers. Por exemplo, se um idoso está usando um benzodiazepínico para dormir, ele terá menos equilíbrio e força para as sessões de fisioterapia, o que explica por que o ganho funcional durante a reabilitação pode ser consideravelmente menor.

Lista de Alternativas aos Critérios de Beers: foco em soluções seguras

Em julho de 2025, a Sociedade Americana de Geriatria liberou um recurso complementar valioso: a Lista de Alternativas aos Critérios de Beers. Enquanto os critérios tradicionais indicam o que não usar, essa nova relação foca no que os médicos podem prescrever em substituição para tratar problemas comuns como insônia, ansiedade e dor, facilitando a prática da desprescrição. Seguem algumas das opções recomendadas:

  • Para insônia: Higiene do sono e Terapia Cognitivo-Comportamental, além de melatonina em doses baixas ou agonistas de melatonina (como ramelteona), que não aumentam o risco de quedas ou confusão mental.
  • Para ansiedade: Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina, como a sertralina ou escitalopram. Demoram algumas semanas para fazer efeito, mas não causam a dependência dos ansiolíticos comuns. Como opção não farmacológica, são recomendadas a psicoterapia e técnicas de relaxamento.
  • Para dor crônica (artrite/artrose): A alternativa de primeira linha é o paracetamol (respeitando o limite diário) para dores de leves a moderadas. Para aplicação tópica, géis ou adesivos de diclofenaco sódico ou lidocaína, pois a absorção sanguínea é mínima, protegendo os rins e o estômago. Por fim, fisioterapia assistida e exercícios de baixo impacto.
  • Para sintomas urinários (bexiga hiperativa): Muitos remédios para bexiga são anticolinérgicos, associados ao declínio cognitivo. A mirabegrona é um medicamento de uma classe diferente, que combate a urgência urinária sem afetar a parte cognitiva ou provocar confusão mental.

Este estudo e as diretrizes atualizadas destacam a necessidade urgente de uma abordagem mais cuidadosa e personalizada na prescrição de medicamentos para idosos, visando sempre a segurança e a qualidade de vida dos pacientes.