Estudo revela: regras escolares reduzem consumo de ultraprocessados por adolescentes
Regras escolares reduzem consumo de ultraprocessados por adolescentes

Ambiente escolar influencia diretamente hábitos alimentares dos adolescentes

A presença de refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados e doces nas cantinas escolares vai muito além de um simples hábito cotidiano. Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Uberlândia revela que o que é vendido nas escolas pode moldar diretamente os padrões alimentares dos jovens brasileiros.

Metodologia robusta com mais de 81 mil participantes

A pesquisa analisou informações detalhadas de mais de 81 mil adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, matriculados em escolas públicas e privadas de todas as capitais brasileiras. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2019, realizada pelo IBGE, e foram cruzados com um levantamento minucioso das normas estaduais e municipais que regulavam a venda de alimentos e bebidas nas escolas até aquele ano.

Para chegar aos resultados conclusivos, os pesquisadores trabalharam com dois conjuntos principais de informações:

  • Mapeamento completo de leis, decretos, portarias e resoluções que tratam da comercialização de alimentos em ambientes escolares
  • Dados da PeNSE que incluem respostas de diretores, responsáveis pelas escolas e relatos dos próprios estudantes sobre seu consumo alimentar

Resultados claros e significativos

Os dados revelaram um padrão consistente e preocupante. Adolescentes que estudavam em escolas cobertas por normas que regulam a venda de alimentos apresentaram consumo significativamente menor de produtos ultraprocessados. Por outro lado, entre aqueles que frequentavam escolas onde as cantinas ofereciam maior variedade desses produtos, o consumo tendia a ser mais elevado.

Essa associação permaneceu evidente mesmo após ajustes por diversos fatores sociodemográficos, incluindo idade, sexo, escolaridade da mãe, tipo de escola, renda familiar e região do país.

Definição e riscos dos ultraprocessados

Os alimentos classificados como ultraprocessados incluem uma variedade de itens que frequentemente ocupam as prateleiras das cantinas escolares:

  1. Refrigerantes e sucos industrializados
  2. Salgadinhos de pacote e biscoitos recheados
  3. Doces, sorvetes e guloseimas diversas
  4. Embutidos e macarrão instantâneo

Estudos anteriores já demonstravam que esses produtos ocupam uma parcela alarmante da dieta dos adolescentes brasileiros. A preocupação dos especialistas se justifica pelo fato de que o consumo regular de ultraprocessados está associado ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares.

O papel formativo do ambiente escolar

Para os autores da pesquisa, o ambiente escolar exerce um papel fundamental na formação de hábitos alimentares duradouros. Como crianças e adolescentes passam grande parte do dia nas escolas, as escolhas que fazem nesse espaço tendem a se repetir ao longo do tempo e podem influenciar seus comportamentos alimentares fora do ambiente educacional.

"Uma das hipóteses é que se o adolescente vê que naquele ambiente escolar, onde ele passa muitas horas do dia, não tem esse tipo de alimento, isso ajuda a formar um hábito de alimentação melhor que pode impactar o consumo de alimentos ultraprocessados até mesmo fora da escola", explica Laura Luciano Scaciota, pesquisadora da USP e primeira autora do artigo científico.

Diferenças entre redes de ensino e desigualdade regional

O estudo também identificou contrastes importantes entre diferentes contextos educacionais. Nas escolas públicas, o Programa Nacional de Alimentação Escolar já estabelece diretrizes que priorizam alimentos in natura ou minimamente processados, o que naturalmente limita a presença de ultraprocessados.

Já nas escolas privadas, onde o PNAE não se aplica, a cantina costuma ter um papel mais central na alimentação dos alunos. A ausência de regras específicas pode ampliar significativamente a oferta desses produtos menos saudáveis.

Outro aspecto preocupante destacado pela pesquisa é a desigualdade regional na regulamentação. Enquanto a maior parte das capitais do Sul, Sudeste e Centro-Oeste já conta com algum tipo de norma para regular a venda de alimentos nas escolas, no Norte e Nordeste ainda há capitais sem qualquer regulamentação específica.

Chamado à ação e perspectivas futuras

Para os pesquisadores envolvidos no estudo, esse cenário pode aprofundar desigualdades no acesso a uma alimentação mais saudável e equilibrada. A pesquisa serve como um incentivo importante para que o poder público elabore novas regulamentações mais abrangentes e eficazes.

"Existem bons exemplos que funcionam pelo país, como em Niterói, no Rio de Janeiro, e no estado do Ceará, mas nós defendemos uma lei nacional que possa inibir a comercialização e publicidade de ultraprocessados nas escolas", completa a pesquisadora Laura Scaciota, enfatizando a necessidade de políticas públicas mais amplas e uniformes.

A pesquisa reforça a importância de se pensar a alimentação escolar como uma questão de saúde pública, com impacto direto no desenvolvimento físico e cognitivo das novas gerações brasileiras.