Reconstrução mamária: menos de um terço das mulheres fazem cirurgia imediata após mastectomia no Brasil
O diagnóstico de câncer de mama não afeta apenas a saúde física das mulheres, mas atravessa dimensões profundas da identidade feminina. As mamas representam muito mais do que órgãos físicos: simbolizam feminilidade, sexualidade e maternidade. Por isso, as transformações corporais impostas pelo tratamento oncológico raramente ocorrem de forma tranquila, especialmente quando não são escolha da mulher.
Transformações corporais e ruptura da previsibilidade
Ao longo da vida, o corpo feminino experimenta mudanças sucessivas. O desenvolvimento mamário na puberdade pode ser vivido como algo desejado, mas também como motivo de vergonha para muitas mulheres. A gestação e a amamentação trazem transformações ainda mais intensas, frequentemente romantizadas pela sociedade, que muitas vezes ignora o cansaço, a falta de apoio e as profundas adaptações físicas envolvidas.
Todas essas fases são, de certa forma, previsíveis. No entanto, um diagnóstico de câncer de mama rompe brutalmente essa previsibilidade. Apesar da frequência da doença, a maioria das mulheres acredita estar protegida, pensando que só acontece com outras pessoas. O diagnóstico, sempre indesejado, muitas vezes chega de forma avassaladora, inclusive para aquelas que realizam exames regularmente.
Realidade brasileira: diagnósticos tardios e acesso limitado
No Brasil, um número significativo de mulheres recebe o diagnóstico quando a doença já está em fases avançadas, resultado de detecções tardias. Mesmo com os avanços da medicina, a prevalência de mastectomias continua elevada, mantendo alta a magnitude da mudança corporal imposta pelo tratamento.
A maioria das mulheres no país depende do Sistema Único de Saúde, e os dados sobre acesso à reconstrução mamária após mastectomia não são animadores. O que limita essa reconstrução além do acesso?
Dados do SUS publicados pelo mastologista Ruffo Freitas-Júnior mostram que, entre 2008 e 2014, a taxa de reconstrução mamária subiu para 29,2%, considerando procedimentos imediatos e tardios. Antes, a cirurgia reconstrutiva representava apenas 15% dos casos. Apesar dessa melhora, ainda estamos muito aquém do ideal.
Desigualdades no acesso à reconstrução
A reconstrução mamária costuma ser apresentada como complemento quase automático à mastectomia no atendimento privado. No entanto, a literatura científica revela que menos de um terço das mulheres brasileiras submetidas à mastectomia realizam reconstrução mamária imediata.
O percentual é ainda menor entre usuárias do SUS, devido a desigualdades regionais, estruturais e à disponibilidade limitada de cirurgiões capacitados, conforme estudo de Fernandes João et al. publicado no Frontiers in Oncology em 2023.
Trata-se de uma reconstrução oncológica cujo objetivo é oferecer volume mamário e potencial melhora da autoestima. Deveria ser parte integral do tratamento, só deixada de lado em caso de contraindicação clínica ou escolha da paciente.
Evolução das técnicas: oncoplastia mamária
Ao longo dos anos, o que era realizado somente por cirurgiões plásticos começou a ser feito também por mastologistas, na chamada Oncoplastia Mamária. Esta estratégia visa reduzir a dificuldade de acesso das mulheres à reconstrução, especialmente em cidades do interior onde cirurgiões plásticos são escassos.
Pouco a pouco, mastologistas estão recebendo treinamento para este tipo de cirurgia, com o objetivo de reduzir essa lacuna. Hoje, na grade de pontos para formação de mastologistas, já existe a necessidade de treinamento em oncoplastia para o cuidado das pacientes.
O mastologista pode trabalhar em conjunto com a equipe de cirurgia plástica ou ser o responsável pela mastectomia e reparação da mama retirada. Isso vem promovendo maior acesso e mais possibilidades de reconstrução neste país continental.
Autonomia e respeito às escolhas individuais
Entretanto, alguns pontos importantes precisam ser mencionados. Mesmo quando a reconstrução é possível, não é recebida como solução perfeita por todas as mulheres. Estudos mostram que:
- Dor persistente
- Limitação funcional
- Dificuldade de incorporação da mama reconstruída à imagem corporal
Esses fatores podem comprometer a adaptação ao resultado cirúrgico. Como as mulheres vivem de formas diferentes a experiência da mastectomia ou da reconstrução, nem todas desejam reconstruir a mama. Algumas não têm acesso a essa possibilidade; outras, mesmo tendo acesso, optam por não fazê-lo.
Essas escolhas precisam ser respeitadas. O papel do médico não é julgar ou impor um caminho único, mas acolher, respeitar e apoiar decisões individuais.
As mudanças corporais impostas pelo câncer de mama escancaram desigualdades e limites do sistema de saúde, mas também revelam histórias de autonomia, ressignificação e força. Valorizar a imagem corporal dessas mulheres não significa enquadrá-las em um padrão, mas garantir que possam viver seus corpos — reconstruídos ou não — com dignidade, liberdade e respeito.