Menino de 3 anos morre após demora crítica na aplicação de soro antiescorpiônico em Conchal, SP
A tragédia que vitimou o menino Bernardo de Lima Mendes, de apenas 3 anos, após uma picada de escorpião em Conchal, interior de São Paulo, expõe falhas graves no atendimento de emergência. Segundo o relato emocionado do pai, Paulo Mendes, o soro antiescorpiônico foi administrado mais de quatro horas após o acidente, um atraso que contraria diretamente os protocolos médicos estabelecidos para casos de envenenamento por escorpião.
Sequência de eventos e demora no atendimento
O acidente ocorreu na noite de terça-feira, 31 de março de 2026, enquanto Bernardo brincava em um colchão dentro de casa. Imediatamente levado ao Hospital e Maternidade Madre Vannini, em Conchal, o menino enfrentou uma espera angustiante. Durante a triagem, o atendente recolheu o escorpião para mostrar à equipe, mas Bernardo permaneceu na sala de espera chorando e reclamando de dor intensa, conforme narrou o pai.
Paulo Mendes relatou que questionou sobre a aplicação do soro específico, mas foi informado por um profissional que o medicamento só seria usado se necessário e que a criança ficaria em observação por seis horas. "O meu filho ali gritava [de dor], dentro da sala. [Falava] papai, mamãe, eu tô com muita dor na barriga", desabafou o tatuador em entrevista.
Sintomas graves e transferência tardia
O estado de Bernardo deteriorou-se rapidamente. Ele começou a vomitar cerca de dez vezes em apenas 20 minutos e apresentava salivação excessiva. Diante da gravidade, foi acionada a transferência para um hospital de referência. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) levou aproximadamente 40 minutos para chegar e transportar o menino para a Santa Casa de Araras, localizada a 26 km de distância.
Durante o trajeto, Bernardo sofreu a primeira parada cardíaca. O soro antiescorpiônico foi finalmente aplicado por volta das 0h25, mais de quatro horas após a picada. Profissionais da Santa Casa administraram seis ampolas, mas o menino teve outra parada cardíaca e precisou ser entubado. Na manhã seguinte, às 10h15, ele não resistiu e faleceu.
Protocolos médicos e tempo crítico
A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo é enfática: crianças de até 10 anos necessitam de tratamento em até uma hora e meia após a picada de escorpião. O Instituto Butantan, principal fornecedor do soro para o Sistema Único de Saúde (SUS), reforça que a aplicação deve ser feita o mais rápido possível para neutralizar o veneno em circulação.
O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp alerta que a maioria dos casos graves ocorre em crianças, pois o veneno se espalha rapidamente pela corrente sanguínea. Manifestações indicativas de envenenamento grave geralmente começam nas primeiras duas horas após a picada.
Investigação policial e posicionamentos
A Polícia Civil de Conchal vai abrir inquérito para investigar a suspeita de negligência por parte do hospital. O delegado Luís Henrique Pereira afirmou que a família será ouvida, embora ainda não tenha registrado boletim de ocorrência.
Em nota, o Hospital e Maternidade Madre Vannini declarou que adotou "todas as medidas clínicas compatíveis com a capacidade da unidade", mas ressaltou que não dispõe de UTI pediátrica e não integra a rede de pontos estratégicos para disponibilização do soro antiescorpiônico. A Prefeitura de Conchal explicou que o município não é unidade de referência para armazenamento e aplicação de soros antivenenos, sendo Araras a cidade designada para esse tipo de atendimento.
Cenário nacional de acidentes com escorpiões
O caso ocorre em um contexto de aumento preocupante de acidentes com escorpiões no Brasil. Em 2025, o país registrou mais de 173 mil ocorrências e o total de mortes ultrapassou 200. A taxa de letalidade subiu de 0,06 para 0,12 entre 2024 e 2025, com crianças e idosos sendo os grupos mais vulneráveis.
Medidas imediatas em caso de picada incluem:
- Lavar o local com água e sabão suavemente
- Não fazer torniquetes, incisões ou sucção
- Não aplicar pomadas ou gelo
- Usar compressas mornas para alívio da dor
- Procurar atendimento médico imediatamente
A secretária municipal de Saúde de Conchal, Flávia Zanchetta, anunciou que enviará um ofício para a regional de Piracicaba para avaliar a possibilidade de ter o soro antiescorpiônico disponível no município, enquanto a Vigilância em Saúde investigará todo o atendimento prestado até o óbito da criança.



