Estudo inédito do INCA testa método para detecção precoce de câncer de pulmão no SUS
INCA testa método para detecção precoce de câncer de pulmão no SUS

Estudo inédito do INCA testa método para detecção precoce de câncer de pulmão no SUS

Um estudo pioneiro para aprimorar a detecção precoce do câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS) foi lançado oficialmente nesta quarta-feira, 1° de abril de 2026, pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). O anúncio ocorreu durante evento realizado no Hospital Municipal Souza Aguiar, localizado no Rio de Janeiro, marcando o início de uma iniciativa que pode transformar o cenário nacional de combate a esta doença.

Metodologia e participantes do estudo piloto

O projeto de pesquisa, que terá duração de dois anos, prevê a aplicação de um método de rastreamento considerado padrão-ouro internacionalmente: a tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD). Esta técnica utiliza níveis reduzidos de radiação e é especialmente direcionada para populações com alto risco de desenvolver câncer de pulmão.

O INCA acompanhará voluntários do Programa de Cessação de Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que conta com aproximadamente 50 mil participantes. O foco em fumantes se justifica porque 85% dos casos de câncer de pulmão estão diretamente relacionados ao uso de cigarro e outros derivados do tabaco.

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Inicialmente, a análise contará com pelo menos 397 participantes, número que poderá ser ampliado conforme o andamento da avaliação. Os critérios de seleção seguem recomendações médicas consolidadas:

  • Idade entre 50 e 80 anos
  • Fumantes com hábito diário de pelo menos 20 cigarros por dia durante 20 anos (carga tabágica)
  • Ex-fumantes que tenham parado nos últimos 15 anos
  • Sem histórico ou sintomas sugestivos de câncer de pulmão

Objetivos e importância para a realidade brasileira

Segundo Roberto Gil, diretor-geral do INCA, a construção de uma política nacional de rastreamento é fundamental não apenas para o diagnóstico precoce, mas para oferecer maior precisão nas análises considerando características específicas da população brasileira.

"Sabemos das experiências internacionais, mas precisamos entender como isso se aplica à nossa realidade. O Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade com muitos casos de tuberculose e doença granulomatosa com nódulos no pulmão. Queremos produzir conhecimento a partir de um projeto-piloto", explicou Gil durante a apresentação do estudo.

A pesquisa tem como objetivos principais:

  1. Coletar evidências científicas sobre a eficácia do método no contexto brasileiro
  2. Avaliar a relação custo-efetividade para o sistema público de saúde
  3. Estabelecer bases para futura elaboração de diretriz nacional
  4. Reduzir significativamente os diagnósticos em estágios avançados

Impacto potencial na mortalidade e tratamento

Os dados do INCA revelam que o câncer de pulmão é o principal causador de mortes por câncer no Brasil, com 32.465 óbitos registrados em 2024 e estimativa de aproximadamente 35.380 novos casos anuais entre 2026 e 2028. Atualmente, cerca de 85% dos casos são detectados em fases mais avançadas, situação em que a taxa de sobrevida em cinco anos chega a apenas 5%.

A tomografia computadorizada de baixa dose apresenta resultados promissores: quando realizada em pacientes de alto risco, a proporção de diagnósticos em estágios avançados cai de 90% para 30%. Além disso, estudos indicam que o uso da TCBD reduz a mortalidade por câncer de pulmão em 20%, percentual que pode chegar a 38% se combinado com a cessação do tabagismo.

Estrutura e financiamento do projeto

O estudo conta com colaboração da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e financiamento da biofarmacêutica AstraZeneca. Segundo Arn Migowski, médico epidemiologista e pesquisador principal do projeto, não será necessário adquirir novos equipamentos para testar a viabilidade do método no SUS.

"Podemos usar o parque tomográfico nacional com um protocolo de baixa radiação nos equipamentos existentes. Com dados nacionais sobre efetividade e riscos, como resultados falso-positivos, vamos fornecer informações da realidade local para uma possível incorporação no SUS", detalhou Migowski.

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Participantes diagnosticados com câncer de pulmão durante o estudo receberão acompanhamento e tratamento no Hospital do Câncer I (HC I), unidade de referência do INCA que integra a rede de alta complexidade do SUS.

Perspectivas para o sistema público de saúde

Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), destacou que "o diagnóstico tardio impacta significativamente o serviço público. Sabemos que tivemos avanços no tratamento, mas são medicações de alto custo. A política de rastreamento não é fácil de ser implementada, porque não envolve apenas a tomografia, mas requer uma linha de cuidado integrada".

Para Roberto Gil, os resultados deste estudo serão cruciais para orientar avaliações orçamentárias futuras: "Com o diagnóstico precoce, teremos um cálculo mais previsível para cada paciente, o que pode ser fundamental para a construção de uma linha de cuidado eficiente e sustentável no SUS".

O projeto representa um marco na saúde pública brasileira, combinando pesquisa científica de ponta com aplicação prática no sistema público, tendo como meta final salvar vidas através da detecção precoce do câncer de pulmão.