Imunoterápico revolucionário contra câncer enfrenta críticas por preços exorbitantes e acesso desigual
O medicamento pembrolizumabe, comercializado como Keytruda e produzido pela farmacêutica americana Merck Sharp & Dohme (MSD), é considerado um tratamento ultramoderno contra o câncer, segundo especialistas em oncologia. Aprovado para uso em pelo menos 19 tipos diferentes de câncer, este imunoterápico já prolongou a vida de milhões de pessoas em todo o mundo desde seu lançamento em 2014, transformando diagnósticos anteriormente fatais em doenças controláveis.
No entanto, o alto custo do remédio – que ultrapassa R$ 20 mil no Brasil – torna-o inacessível para muitos pacientes que mais necessitam do tratamento, tanto em território brasileiro quanto globalmente. Uma investigação internacional conjunta publicada recentemente pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), em parceria com 47 veículos jornalísticos incluindo a DW Turquia, revelou que a MSD utiliza uma combinação de estratégias legais e comerciais para determinar quem terá acesso à medicação.
Campeão de vendas com impacto financeiro monumental
O Keytruda pertence a uma classe de imunoterápicos que permite ao sistema imunológico atacar células cancerígenas e gerou uma receita impressionante de US$ 31,7 bilhões apenas em 2025, o equivalente a aproximadamente R$ 160 bilhões. Desde sua aprovação, o medicamento acumulou receita global de US$ 163 bilhões, com 60% das vendas provenientes dos Estados Unidos.
Enquanto isso, a empresa distribuiu cerca de US$ 75 bilhões em dividendos aos acionistas e realizou US$ 43 bilhões em recompra de ações. Essas cifras bilionárias posicionam o Keytruda como um dos maiores sucessos financeiros na história da indústria farmacêutica mundial.
Custos do tratamento pressionam sistemas de saúde globais
O sucesso comercial, contudo, não resultou em redução de preços. As despesas anuais com tratamento variam drasticamente entre países: aproximadamente US$ 80 mil na Alemanha, US$ 208 mil nos Estados Unidos, US$ 93 mil no Líbano, US$ 130 mil na Colômbia, US$ 65 mil na África do Sul e US$ 116 mil na Croácia.
Esses valores estão sobrecarregando orçamentos públicos de saúde, inclusive em nações ricas. Nos últimos anos, as vendas do Keytruda expandiram-se aceleradamente: no Brasil, aumentaram 265% entre 2020 e 2024, alcançando US$ 753,7 milhões; na França, cresceram 232% para US$ 2,8 bilhões; no México, subiram 491% para US$ 137,3 milhões; e na Turquia, aumentaram 584% para aproximadamente US$ 100 milhões.
Estratégias de patentes criam "fortaleza" contra concorrência
O projeto Cancer Calculus descobriu que a MSD utilizou extensivamente o sistema de patentes para manter sua posição dominante no mercado. Jornalistas identificaram pelo menos 1.212 pedidos de patente relacionados ao Keytruda em 53 jurisdições diferentes, sendo 88 somente no Brasil.
Embora as principais patentes do medicamento devam expirar em 2028, as patentes de continuação podem estender o monopólio de mercado até pelo menos 2042, atrasando a entrada de alternativas mais baratas em mais de uma década. Especialistas caracterizam essa situação como uma "fortaleza de patentes" criada para sufocar a concorrência.
Relações financeiras com profissionais de saúde geram controvérsia
A investigação também expôs processos regulatórios e esforços de lobby que ajudaram a expandir o uso do medicamento, além de relações financeiras estabelecidas com médicos e grupos de pacientes. Somente nos Estados Unidos, registros mostram que a MSD repassou aproximadamente US$ 52 milhões a profissionais de saúde entre 2018 e 2024 em pagamentos relacionados ao Keytruda.
Um estudo realizado para o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA constatou que a prescrição de medicamentos oncológicos administrados por médicos, como o Keytruda, aumentou 4% nos 12 meses seguintes ao recebimento de financiamento de uma empresa farmacêutica por um profissional de saúde.
Custos de pesquisa e desenvolvimento são questionados
Outro ponto controverso diz respeito aos custos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do Keytruda. Enquanto o CEO da MSD, Robert M. Davis, afirmou perante o Congresso americano em 2024 que a empresa investiu US$ 46 bilhões entre 2011 e 2023 na pesquisa, desenvolvimento e produção do medicamento, uma análise da ONG suíça Public Eye estima esses custos em aproximadamente US$ 1,9 bilhão – US$ 44 bilhões a menos do que o informado pela empresa.
Mesmo incluindo os custos de ensaios clínicos malsucedidos, essa estimativa sobe para apenas US$ 4,8 bilhões, ou cerca de 3% da receita total gerada pelo medicamento desde seu lançamento.
Disparidades de acesso revelam desigualdades globais profundas
Os preços do Keytruda variam enormemente entre países: na Indonésia, um frasco de 100 mg custa aproximadamente US$ 850, enquanto nos Estados Unidos esse valor ultrapassa US$ 6 mil. Essa diferença resulta de um sistema de preços pouco transparente, caracterizado por descontos ocultos e negociações.
As disparidades de renda, e não apenas o preço, são fatores determinantes para o acesso. Nos Estados Unidos, um paciente com renda média pode pagar menos de cinco doses por ano, enquanto na África do Sul, uma pessoa com renda mediana não consegue pagar nem mesmo uma única dose de 200 mg anualmente.
Cenário brasileiro: judicialização e esperança de produção nacional
O alto custo dos medicamentos contra o câncer levou a um aumento significativo de processos judiciais no Brasil. Nos últimos anos, milhares de ações foram movidas por pacientes que buscam acesso ao tratamento por meio de ordens judiciais. O Keytruda corresponde ao medicamento com mais judicializações em território nacional, com 6,7 mil ações em instâncias estaduais e federais.
Contudo, essa realidade pode mudar em breve. No final de março deste ano, o governo brasileiro anunciou uma parceria estratégica para a produção do pembrolizumabe pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A ação prevê a transferência de tecnologia da MSD para o Instituto Butantan, fomentando a produção nacional do medicamento, o que deve permitir a ampliação da quantidade de tipos de câncer atendidos pelo tratamento na rede pública de saúde.
Atualmente, o Keytruda só é receitado no tratamento de melanoma, mas no futuro poderá ser utilizado também contra cânceres de mama, pulmão, esôfago e colo do útero. Além disso, a produção própria deve reduzir o custo do produto no mercado nacional, tornando-o mais acessível para tratamentos oncológicos.
Questões sobre dosagem e eficiência do tratamento
A investigação internacional também levantou questões sobre como o medicamento é prescrito. Alguns pesquisadores argumentam que o Keytruda é frequentemente administrado em doses maiores do que o necessário. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a simples mudança para a dosagem baseada no peso para pacientes com câncer de pulmão poderia gerar uma economia de aproximadamente US$ 5 bilhões em todo o mundo ao longo de 15 anos.
Em muitos países, hospitais já começaram a testar doses mais baixas, com resultados iniciais apontando para níveis de eficácia semelhantes, como em Singapura, Malásia e Taiwan. Algumas nações, incluindo Holanda, Canadá e Israel, começaram a adotar um sistema em que a dose é determinada de acordo com o peso do paciente e obtiveram resultados promissores.
Resposta da MSD e debate sobre valor versus acesso
Ao ser contatada pelo ICIJ, a MSD defendeu sua estratégia de preços, afirmando que o preço do Keytruda "reflete seu valor para pacientes e sistemas de saúde". A empresa também afirmou que o acesso a medicamentos é uma questão "multifacetada", dependendo não apenas do preço, mas também de muitos outros fatores, como sistemas de saúde, políticas de reembolso e infraestrutura.
A farmacêutica confirmou que aplica preços variados em diferentes mercados e mantém programas de apoio ao paciente, participando ativamente de iniciativas para aumentar o acesso a medicamentos em países de baixa e média renda.
Desigualdades apontam para problemas estruturais na saúde global
Segundo especialistas entrevistados pela investigação, as práticas da MSD não são exclusivas, mas refletem uma dinâmica mais ampla da indústria farmacêutica, onde a proteção de patentes, as estratégias de preços e os marcos regulatórios frequentemente favorecem os fabricantes em detrimento dos pacientes.
O acesso a tratamentos que prolongam a vida muitas vezes depende não apenas de necessidades médicas, mas também da localização geográfica, da renda e da capacidade de lidar com sistemas jurídicos e financeiros complexos. Essas desigualdades apontam para problemas estruturais mais profundos no sistema global de saúde.
Como destacou Nasır Nesanır, chefe do Departamento de Saúde Pública da Associação Médica Turca, a questão fundamental é saber "se o progresso no tratamento do câncer deve ser um direito universal ou um privilégio dependente do mercado". O resultado é uma profunda divisão global: enquanto para alguns o medicamento representa sobrevivência, para muitos outros permanece completamente inacessível.



