Jovem enfrenta drama raro após cirurgia bariátrica: da obesidade à desnutrição severa
A fotógrafa Uli Suellen, então com 30 anos, decidiu realizar a cirurgia bariátrica em maio de 2021 pesando 115 quilos. Ela buscava tratamento para refluxo e acreditava estar prevenindo riscos maiores à saúde, após ouvir que poderia morrer se não operasse. Dez meses depois, sua realidade era completamente diferente: estava na nona internação em terapia intensiva, com desnutrição severa, deficiência grave de potássio e risco de arritmia cardíaca.
Complicações graves e perda drástica de peso
O problema começou no pós-operatório imediato. Uli retornou da cirurgia com complicações respiratórias e dificuldade para engolir. Recebeu alta hospitalar, mas em casa a situação piorou rapidamente. Ela não conseguia ingerir água nem saliva, e a fraqueza aumentava progressivamente. Em apenas dois meses, perdeu 30 quilos.
Uma nutricionista que a avaliou em domicílio orientou internação imediata. No hospital, foi levada à UTI com desidratação severa e níveis perigosamente baixos de potássio. Ao longo desse período, Uli perdeu 75 quilos no total, desenvolveu infecção renal, úlcera, anemia, perdeu parte da visão e chegou a pesar apenas 32 quilos.
Dez meses entre hospital e incertezas
Durante dez meses, Uli passou mais tempo no hospital do que em casa. Desenvolveu infecção renal por não conseguir ingerir água, precisou de transfusões de sangue, utilizou nutrição parenteral (alimentação pela veia) e sonda. Em uma das internações, após episódios de tentativa frustrada de alimentação, sofreu uma torção intestinal e precisou de nova cirurgia de urgência.
Seu corpo entrou em colapso progressivo. Ela perdeu parte da visão do olho direito, não conseguia ficar em pé, não tinha força para ir ao banheiro sozinha. O cabelo caiu e a pele doía ao toque. Em meio às investigações, foram levantadas hipóteses de doenças autoimunes e síndromes genéticas. Em determinado momento, seu prontuário registrou anorexia como suspeita diagnóstica.
"Eu sabia que tinha algo errado. Eu queria comer. Eu tentava. A comida não passava. Nem água. E ainda assim diziam que era coisa da minha cabeça", relata Uli, que afirma ter ouvido de médicos que poderia estar forçando a não comer. Parte da família passou a duvidar de seu relato, e apenas o marido permaneceu ao seu lado.
Intervenção especializada e decisão pela reversão
O cirurgião do aparelho digestivo Thales Maia, especialista em bariátrica, assumiu o caso de Uli meses depois. Quando a conheceu, ela já estava na nona internação em terapia intensiva, com desnutrição grave e hipocalemia persistente. Segundo ele, o nível de potássio era o ponto mais crítico, uma vez que o mineral é essencial para a contração cardíaca.
Mesmo com reposição oral e intravenosa, os níveis não se mantinham. Diante de um quadro grave e refratário ao tratamento clínico, a reversão tornou-se a alternativa possível. Maia avalia que, do ponto de vista técnico, a cirurgia de Uli estava adequada, e a principal hipótese é que o quadro pode ter envolvido uma variação individual rara na absorção de potássio.
Especialistas explicam complicações raras
Diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a endocrinologista Cintia Cercato explica que as intercorrências mais relevantes costumam ocorrer nas primeiras semanas após a cirurgia. Complicações maiores exigem investigação imediata quando surgem sintomas persistentes.
Apesar da segurança global do procedimento, especialistas são categóricos ao afirmar que sintomas persistentes não devem ser interpretados como parte "normal" da adaptação. Cercato destaca que vômitos contínuos no pós-operatório são sempre sinal de alerta, podendo indicar estenose da anastomose, torção de alça intestinal ou obstrução.
Denis Pajecki, coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), afirma que a incapacidade de ingerir líquidos de forma adequada e contínua é um dos principais sinais de alerta no pós-operatório. Nesses casos, a conduta recomendada é internação, correção dos distúrbios hidroeletrolíticos, reposição de vitaminas e investigação ativa para identificar a causa.
A reversão e a recuperação
Para realizar a reversão, Uli precisou primeiro recuperar parte do estado nutricional com suporte intensivo na UTI. A cirurgia foi feita em 2022. Segundo Maia, o trato gastrointestinal foi restabelecido com sucesso e houve melhora completa do quadro metabólico.
Na primeira semana após a reversão, ela voltou a engolir. Na segunda, começou a caminhar sozinha. A visão retornou gradualmente, o potássio estabilizou e ela não voltou a ser internada. Ainda precisou de fisioterapia por ter permanecido acamada por meses e desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático, com crises de pânico e medo de hospital. Hoje faz terapia e mantém acompanhamento nutricional.
Estatísticas e alertas importantes
A cirurgia bariátrica é um dos procedimentos mais estudados no mundo no tratamento da obesidade e, quando realizada em centros experientes, apresenta baixos índices de problemas graves. Especialistas apontam que a taxa global de complicações severas gira em torno de 0,5%, com mortalidade aproximada de 0,1%.
A desnutrição severa precoce é considerada incomum, especialmente quando há acompanhamento multidisciplinar adequado. Cercato explica que deficiências nutricionais graves costumam estar associadas a complicações gastrointestinais que precisam ser investigadas rapidamente.
Especialistas reforçam que a bariátrica é um tratamento eficaz para obesidade — doença crônica e multifatorial — e que o efeito da cirurgia é majoritariamente hormonal e metabólico. No entanto, sintomas persistentes precisam ser investigados de forma ativa.
Para Uli, o que mais marcou foi a sensação de não ter sido ouvida. "O que mais me traumatizou foi a falta de acompanhamento. Espero que ninguém passe pelo que passei", afirma a fotógrafa, que hoje compartilha sua experiência como alerta para outros pacientes.



