Desde o dia 3 de maio, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou a morte de três pessoas a bordo do cruzeiro MV Hondius, o hantavírus entrou no radar global. As buscas sobre a doença dispararam nos últimos dias, impulsionadas pelo receio de uma nova pandemia. Até agora, autoridades sanitárias confirmaram ao menos sete casos ligados à embarcação, enquanto outros seguem em investigação.
Operação internacional
O episódio mobilizou uma operação internacional incomum. Após os primeiros casos suspeitos e a confirmação das mortes, o Hondius passou dias circulando sem autorização imediata para atracar. Nesse meio-tempo, diferentes países começaram a organizar operações próprias para repatriar passageiros, combinando evacuações e monitoramento sanitário. O fim do desembarque está previsto para esta segunda-feira, 11 de maio.
A saga incluiu cenas que lembraram os primeiros meses da covid-19: passageiros deixando o navio em pequenos grupos, usando trajes de proteção azuis, e sendo levados em ônibus adaptados, com barreiras físicas separando motoristas e viajantes. Também houve espaço para uma operação militar de quase 10 mil quilômetros, com médicos e paraquedistas mobilizados para alcançar um passageiro que havia descido no caminho em Tristão da Cunha, território britânico conhecido por abrigar uma das comunidades mais isoladas do mundo, com cerca de 200 moradores.
O que é o hantavírus?
O hantavírus é um grupo de vírus transmitidos principalmente por roedores silvestres infectados. O contato com urina, fezes e saliva desses animais, especialmente em locais fechados e pouco ventilados, é a principal forma de infecção em humanos.
Como ocorre a transmissão?
Na maioria dos casos, a infecção acontece após o contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados. O cenário mais comum é quando essas secreções secam no ambiente e pequenas partículas contaminadas acabam sendo espalhadas no ar – por exemplo, ao varrer ou limpar locais fechados e pouco ventilados, como galpões, depósitos, sótãos, cabanas ou casas que ficaram muito tempo sem uso. A transmissão também pode ocorrer ao tocar materiais contaminados e depois levar a mão aos olhos, nariz ou boca, além de casos mais raros envolvendo mordidas de roedores ou alimentos contaminados.
O hantavírus passa de pessoa para pessoa?
Na maior parte das variantes, não. Porém, existe uma exceção: a chamada “cepa dos Andes”, identificada principalmente na Argentina e no Chile. Estudos sugerem que ela pode ser transmitida entre pessoas em situações de contato próximo e prolongado. No caso do MV Hondius, autoridades investigam justamente a possibilidade de os casos estarem relacionados a essa variante.
O hantavírus é um vírus ‘novo’?
Embora tenha ganhado evidência agora, o hantavírus não é uma doença nova. No Brasil, por exemplo, já foram confirmados sete casos em 2026. Já em 2025, houve cerca de 40 registros da doença. O ponto é que todos os casos estão relacionados ao tipo de contaminação mais comum, que envolve a inalação de aerossóis formados a partir de excreções de roedores. O que chama atenção no episódio atual é a possível circulação da cepa andina, considerada rara e associada à transmissão entre pessoas. Além disso, o fato de o surto envolver um cruzeiro internacional – e toda a operação de monitoramento e repatriação ao redor dele – contribuiu para ampliar a repercussão do caso.
Quais são os sintomas?
Os sintomas iniciais costumam se parecer bastante com os de uma gripe forte:
- Febre repentina
- Dor de cabeça
- Dores musculares
- Fadiga
- Calafrios
- Náusea, vômito ou diarreia
Depois de alguns dias, alguns pacientes podem evoluir para sintomas mais graves, principalmente respiratórios, como tosse, falta de ar e dificuldade respiratória. Em outras variantes, o vírus pode atingir os rins e causar insuficiência renal, sangramentos e queda importante da pressão. Os sintomas costumam surgir entre uma e seis semanas após a exposição ao vírus.
A doença é grave?
Pode ser. A síndrome pulmonar por hantavírus, registrada nas Américas, tem alta taxa de mortalidade nos casos graves. Estudos apontam que cerca de um terço dos pacientes que desenvolvem comprometimento respiratório importante morre. Já a febre hemorrágica com síndrome renal, mais comum na Europa e na Ásia, também pode provocar complicações severas, incluindo choque circulatório e insuficiência renal. No caso do MV Hondius, as autoridades ainda não divulgaram detalhes sobre o que exatamente levou à morte dos passageiros a bordo.
Existe tratamento?
Não existem vacinas nem medicamentos específicos para o hantavírus. O tratamento costuma ser feito com suporte médico intensivo. Nos casos pulmonares, pacientes podem precisar de oxigênio, ventilação mecânica e até Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), técnica usada para oxigenar o sangue fora do corpo. Quando há comprometimento renal, alguns pacientes precisam de diálise.
Existe risco de uma nova pandemia?
A OMS fez questão de afastar comparações com a covid-19 e afirmou que o risco epidêmico global segue baixo. “Não é o começo de uma pandemia”, disse Maria Van Kerkhove, responsável pela área de prevenção e preparação para epidemias e pandemias da OMS, na primeira coletiva da agência após o início da crise no MV Hondius. O principal ponto destacado pelos especialistas é que a forma de transmissão do hantavírus continua muito diferente da observada no coronavírus. Na maior parte dos casos, a infecção acontece a partir do contato com excreções de roedores infectados e não pela circulação entre humanos. Mesmo no caso da cepa dos Andes, os registros indicam um contágio mais limitado, geralmente ligado a contatos próximos e prolongados.



