O avanço do envelhecimento populacional no Brasil evidencia a urgência de expandir o atendimento à terceira idade. Enquanto muitas famílias necessitam de suporte para cuidar de seus idosos, a rede pública de apoio ainda é incipiente e está concentrada principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte contam com centros-dia, que funcionam como "creches" para idosos em situação de vulnerabilidade sem rede de apoio. Em contrapartida, capitais como Vitória oferecem serviços parciais, enquanto Maceió e João Pessoa não disponibilizam esse tipo de atendimento.
Crescimento acelerado da população idosa
De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados em 17 de abril, o Brasil registrou um aumento de 58,5% no número de pessoas com 60 anos ou mais em um período de 13 anos. O contingente de idosos saltou de 22,2 milhões em 2012 para 35,2 milhões em 2025, um crescimento de 13 milhões — superando a população total da cidade de São Paulo, que é de 11,9 milhões. Em sentido oposto, a população jovem encolheu: o grupo com menos de 30 anos recuou de 98,2 milhões para 88 milhões no mesmo intervalo, uma redução de aproximadamente 10%.
Sobrecarga dos cuidadores familiares
O envelhecimento populacional impõe uma carga pesada sobre cuidadores como Marines Barbosa, de 55 anos, que dedica-se integralmente à mãe Isaura, de 75. Portadora de Parkinson, demência por Corpos de Lewy (DCL) e problemas intestinais, a idosa requer cuidado 24 horas por dia. "Ela pode tomar remédio errado, pode cair dentro de casa, tem médico toda semana, acorda pela madrugada, exige amparo constante", relata Marines, descrevendo exaustão física e psicológica. Há cerca de cinco anos, ela abandonou todas as atividades pessoais para se dedicar exclusivamente à mãe.
Solidão e busca por serviços públicos
Muitos idosos também enfrentam a solidão devido à ausência da família. Para mitigar esse problema, parte deles recorre a serviços públicos de recreação e integração. Na Vila Maria, zona norte de São Paulo, a aposentada Marluce Maria Ribeiro, 71, encontrou no Núcleo de Convivência para Idosos Pipas a energia para manter uma rotina ativa. Ela vive sozinha com um neto autista de 32 anos, que depende de seus cuidados desde a morte da filha, quando o rapaz era bebê. "Venho todos os dias da semana. Aqui é meu ânimo, minha alegria e, participando do projeto, consigo me distrair. É um lugar de amizade, me sinto viva ao voltar para casa", afirma. Marluce atribui ao serviço municipal parte de seu "bom envelhecimento", que inclui ir ao mercado, ao banco e ainda costurar para complementar a renda.
Katsuyosiii Ishikawa, 92, é o decano do grupo e exala energia após uma hora de treino funcional. "Estou sempre firme, lúcido e ativo. Se eu ficar sem fazer, é pior", diz o idoso, que frequenta o local duas vezes por semana com a esposa Irene, de 84. Ele mantém uma rotina ativa: acorda às 7h, cuida das plantas e limpa o quintal. Janete Aparecida da Silva, 70, conheceu o grupo após sofrer um AVC. "Esse lugar mudou a minha vida. Aqui tem de tudo: artesanato, psicólogo, roda de conversa. Isso contribui para uma vida mais saudável, um envelhecer mais feliz", relata. O espaço oferece alimentação, atividades físicas e recreativas, e conta com cerca de 560 matriculados, com média de 120 frequentadores diários.
Desigualdade na oferta de serviços
Segundo David Araújo, gerente de serviços do Núcleo Pipas, a maioria dos atendidos chega por recomendação médica, buscando pilates, zumba e treino funcional. "Eles percebem que as atividades dão retorno", explica. São Paulo possui 96 unidades de convivência, além de sete centros-dia (com 810 vagas) e um Serviço de Atenção Diária à Pessoa Idosa (com 180 vagas). Esses serviços oferecem alimentação, convivência, estímulo cognitivo e apoio às famílias, especialmente para idosos com dependência.
No entanto, a oferta não é homogênea no país. Levantamento da Folha junto às prefeituras das capitais revela disparidades. No Sudeste, todas as capitais têm rede de acolhimento: São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro possuem centros-dia; Vitória mantém centros de convivência e visitas domiciliares. No Sul, Curitiba afirma ter dois centros-dia; Florianópolis não respondeu, mas divulga o serviço em seu site. No Centro-Oeste, Cuiabá não tem centros-dia, mas realiza atividades de convivência com 971 idosos; Campo Grande e Goiânia não oferecem o serviço; Brasília não respondeu. No Norte, apenas Palmas confirmou que duas entidades civis prestam o serviço; as demais não responderam. No Nordeste, Recife mantém um espaço de convivência diária para cerca de 1.000 idosos; Aracaju dispõe de uma unidade; João Pessoa não possui centro-dia, mas oferece atividades de convivência; as demais capitais não responderam.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que auxilia iniciativas de promoção da saúde.



