Uso de drogas entra no top 10 de riscos de morte nas Américas, alerta OPAS
Drogas entre os 10 maiores riscos de morte nas Américas

Um levantamento abrangente da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) trouxe um alerta grave para o continente americano. Os transtornos relacionados ao consumo de drogas agora figuram entre os dez principais fatores de risco para morte e incapacidade em toda a região, que engloba desde nações ricas, como Estados Unidos e Canadá, até países de renda média e baixa da América Latina e Caribe.

Uma epidemia em números: 17,7 milhões de pessoas afetadas

Os dados, baseados no estudo Global Burden of Disease 2021 e analisados ao longo de mais de 20 anos (de 2000 a 2021), pintam um cenário alarmante. Em 2021, aproximadamente 17,7 milhões de pessoas viviam com algum transtorno por uso de drogas nas Américas. No mesmo ano, quase 78 mil mortes foram atribuídas diretamente a essas condições. Essa taxa de mortalidade é quatro vezes superior à média global, evidenciando a gravidade da crise no continente.

O impacto vai além das mortes diretas. O indicador de Anos de Vida Ajustados por Incapacidade (AVAD), que mede a perda de anos de vida saudável, quase triplicou entre 2000 e 2021 para esses transtornos, com um crescimento médio anual próximo de 5%.

Opioides e cocaína: as faces regionais da crise

A epidemia tem rostos diferentes conforme a sub-região. Na América do Norte, a crise é dominada pelos opioides, responsáveis por mais de 75% das mortes associadas aos transtornos por consumo de drogas. Substâncias sintéticas de alta potência, como o fentanil, têm um papel central nesse cenário devastador.

Já no Caribe, na América Central e na América do Sul, os transtornos estão mais associados ao uso de cocaína e cannabis. O estudo da OPAS estima que, em 2021, mais de 145 mil mortes por todas as causas na região estiveram relacionadas a condições atribuíveis ao uso de drogas, incluindo overdose, doenças hepáticas e suicídio.

O agravante da pandemia e o perfil dos afetados

A pandemia de covid-19 funcionou como um acelerador dessa crise sanitária. O estresse, o isolamento social e a interrupção de serviços de saúde contribuíram para aumentos significativos nos transtornos, especialmente os relacionados a opioides e anfetaminas.

Embora homens jovens ainda concentrem a maior parte dos casos, os dados revelam uma tendência preocupante: um aumento nas mortes por esses transtornos entre mulheres nos últimos anos.

Caminhos para reverter a tendência: tratamento e prevenção

Diante desse quadro, a OPAS defende uma ação integrada e urgente. Renato Oliveira e Souza, chefe da Unidade de Saúde Mental e Consumo de Substâncias da organização, afirma ser crucial "colocar a saúde mental e o cuidado relacionado ao consumo de substâncias no centro dos sistemas de saúde".

As recomendações da organização para reverter a tendência incluem:

  • Fortalecer programas de prevenção voltados para jovens e grupos de risco.
  • Ampliar o acesso ao tratamento, incluindo o uso assistido de medicamentos para dependência de opioides.
  • Integrar o cuidado ao uso de substâncias à atenção primária e aos serviços comunitários.
  • Aperfeiçoar os sistemas de vigilância para identificar tendências emergentes, como o uso de opioides sintéticos.

No Brasil, centros especializados, como o Instituto Perdizes da Universidade de São Paulo (USP), já atuam no acompanhamento e tratamento de dependentes de opioides e outras substâncias, como ansiolíticos. A iniciativa exemplifica o tipo de resposta especializada que a OPAS considera essencial para enfrentar esta que se tornou uma das maiores ameaças à saúde pública nas Américas.