Doença renal crônica avança 9,2% no Brasil; diabetes é principal causa
Doença renal cresce 9,2%; diabetes lidera causas

Crescimento alarmante da doença renal crônica no Brasil

Em um período de apenas um ano, o número de brasileiros que necessitam de tratamento por diálise devido à doença renal crônica registrou um aumento significativo de 9,2%. Os dados mais recentes, divulgados nesta quinta-feira (12) pela ABCDT (Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante), revelam um cenário preocupante para a saúde pública nacional. O levantamento foi apresentado por ocasião do Dia Mundial do Rim e integra o novo Observatório Nacional de Dados da Diálise, plataforma criada para centralizar informações sobre o perfil dos pacientes, a oferta de serviços e o acesso ao tratamento em todo o país.

Números que preocupam

De acordo com a entidade, em dezembro de 2025, um total de 170.868 brasileiros realizavam diálise regularmente, contra 156.473 registrados no ano anterior. No entanto, a ABCDT estima que o número real de pessoas que precisariam do tratamento seja de aproximadamente 230 mil, o que significa que mais de 60 mil pacientes estariam sem acesso à terapia essencial para sua sobrevivência.

Para o médico nefrologista e intensivista André Pimentel, diretor técnico da ABCDT, esse cenário reflete dois problemas graves: o diagnóstico tardio da doença e as dificuldades de acesso à assistência especializada. "O paciente continua entrando por uma porta que não é a ideal, que são as urgências e emergências", afirma o especialista, destacando que a doença renal crônica costuma evoluir de forma silenciosa, especialmente quando associada à hipertensão arterial ou à diabetes.

Principais causas e desafios no diagnóstico

A diabetes aparece como a principal causa da doença renal crônica no país, sendo responsável por 33,8% dos casos. Em segundo lugar está a hipertensão arterial, com 26,5% dos registros. Doenças primárias dos rins, como glomerulonefrites, representam 11,5%, enquanto complicações renais secundárias respondem por 5,9%.

Segundo Pimentel, um dos grandes desafios é justamente o diagnóstico tardio. Muitos pacientes descobrem o problema apenas em estágios avançados, quando a diálise já se torna inevitável. "Com diagnóstico precoce e uso das medicações adequadas, é possível retardar a progressão da doença e adiar a necessidade de diálise", explica o médico, defendendo a ampliação do rastreamento entre grupos de risco, como diabéticos, hipertensos e idosos, na atenção primária.

Falta de conscientização e acesso

O médico Fabiano Guimarães, presidente da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), ressalta que a questão é multifatorial. "Vai desde a dificuldade de acesso à atenção primária até a falta de capacitação de profissionais que estão fazendo o atendimento e o controle dessas doenças", afirma. Do ponto de vista do paciente, ainda há menosprezo em relação ao cuidado da diabetes e, mais ainda, da hipertensão.

"As pessoas têm dificuldade de entender que são doenças crônicas, que podem evoluir mal, que envolvem mudanças de hábitos, restrição dietética, atividades físicas", complementa Guimarães. Muitos diagnósticos de diabetes e hipertensão são tardios, o que aumenta significativamente as chances do desenvolvimento da doença renal crônica.

Desigualdade regional no acesso ao tratamento

O levantamento também evidencia uma forte desigualdade regional na distribuição dos serviços de diálise. O país possui 898 centros de diálise em atividade, mas eles estão concentrados principalmente nas regiões mais desenvolvidas. O Sudeste responde por 47,7% dos pacientes em tratamento, enquanto a região Norte concentra apenas 5% dos atendimentos.

A diferença se torna ainda mais evidente quando comparada à distribuição populacional: o Sudeste abriga cerca de 41,8% dos brasileiros, enquanto o Norte reúne 8,5%. Para muitos pacientes que vivem em regiões com menor oferta de serviços, a alternativa é enfrentar longos deslocamentos várias vezes por semana. Há casos em que pessoas percorrem até 300 quilômetros para realizar o tratamento.

Impacto no sistema de saúde

Apesar de o atendimento ser majoritariamente público, a rede de diálise é operada em grande parte por prestadores privados contratados pelo sistema público. O Sistema Único de Saúde (SUS) responde por quase 90% dos atendimentos realizados no país. O gasto anual do sistema com diálise chegou a R$ 7 bilhões, um aumento de 8,5% em relação ao ano anterior. O custo médio nacional é estimado em R$ 3.380 por paciente por mês.

Pimentel alerta que o crescimento da doença ocorre em ritmo mais acelerado que o reajuste do financiamento, o que pressiona as clínicas e dificulta a expansão da oferta. O estudo também identificou desigualdade no acesso a tecnologias mais modernas de tratamento. A hemodiálise convencional segue como a modalidade predominante, presente em 87,5% dos atendimentos, enquanto a hemodiafiltração, técnica considerada mais eficiente, responde por apenas 7,3% das terapias.