Estudo do Unicef revela percepção equivocada sobre alimentos ultraprocessados para crianças
Uma pesquisa divulgada pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças de até 6 anos no Brasil traz dados preocupantes: cuidadores frequentemente percebem alguns desses produtos como saudáveis para a saúde das crianças. O levantamento, realizado em parceria com a Novo Nordisk, mostra que 52% consideram iogurtes com sabor saudáveis e 49% acham o mesmo de "nuggets" feitos na fritadeira elétrica.
Metodologia e participantes da pesquisa
O estudo foi realizado em três comunidades urbanas brasileiras:
- Guamá, em Belém
- Ibura, em Recife
- Pavuna, no Rio de Janeiro
Na etapa qualitativa participaram 80 pessoas, entre mães ou cuidadoras e líderes comunitários. Já na etapa quantitativa, 514 responsáveis responderam questionários. A análise dos dados utilizou o Modelo de Determinantes Comportamentais (BDM) do Unicef, que examina o comportamento a partir de fatores psicológicos, sociológicos e ambientais/estruturais.
Percepção distorcida sobre alimentos
O relatório da pesquisa afirma que os responsáveis conseguem diferenciar alimentos saudáveis dos não saudáveis, mas a composição e o preparo dos alimentos afeta significativamente a percepção. O uso de fritadeira elétrica, por exemplo, cria uma falsa ideia de saúde. Alimentos como suco com açúcar (68%) e peixe frito (63%) passam pela mesma percepção equivocada.
Termos como "processado" ou "ultraprocessado" não aparecem na fala das entrevistadas, indicando uma lacuna no conhecimento nutricional básico. Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef no Brasil, explica: "Historicamente não se tem um entendimento e o que falta é uma educação nutricional, até hoje não foi feita uma estratégia de comunicação para o entendimento principalmente com as pessoas de baixa escolaridade."
Falhas na rotulagem nutricional
Em 2022, o Brasil implementou a rotulagem nutricional frontal, que visa alertar quando um alimento possui alto teor de açúcar, sódio e gordura. No entanto, os resultados são preocupantes:
- 55% dos entrevistados afirmam que nunca olharam para essa "lupa" antes de comprar um produto
- 62% afirma que nunca deixou de comprar um produto devido a informação nutricional ou selos de alerta
- 8% acreditam que o produto com essa rotulagem é, na verdade, mais saudável
"A ideia da rotulagem frontal é justamente te ajudar a fazer escolhas alimentares saudáveis de uma forma mais facilitada, mas isso não está acontecendo", afirma Stephanie Amaral.
Estratégias da indústria alimentícia
Raphael Barreto da Conceição Barbosa, pesquisador da Ensp/Fiocruz e professor da Escola de Enfermagem da UFF, aponta que essa desinformação é baseada em estratégias de divulgação da indústria alimentícia. Segundo ele, a presença de imagens de frutas, produtos in natura, selos de produto vegano ou sem glúten contribuem para esse falso entendimento.
Em relação à rotulagem frontal, ele olha com positividade o fato de, apesar de 55% ignorarem a lupa, 45% dos participantes já mudou alguma escolha alimentar em função do alerta. "A rotulagem frontal é uma norma recente que teve uma baixa divulgação sobre a sua implementação, apesar de ser bem direta."
Fatores sociais e sobrecarga materna
Outros fatores sociais também são relacionados à alta de consumo de ultraprocessados:
- Preço dos produtos (ultraprocessados são geralmente mais baratos)
- Sobrecarga materna (90% das mães são responsáveis por comprar e oferecer alimentos)
- Limitação de redes de apoio
Barbosa destaca que, em conjunto com a questão de gênero, há o olhar para o componente racial. As mulheres negras têm constantemente uma opressão de classe, raça e gênero. "Muitas vezes elas trabalham com atividades relacionadas à alimentação e o cuidado doméstico e, quando voltam para casa, precisam também cuidar desses filhos, cuidar dessa casa e dessa alimentação, recaindo sobre elas todas essas opressões de forma conjunta."
Ele cita o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, que destacou que a insegurança alimentar atingiu o dobro dos lares chefiados por pessoas negras, na comparação com aqueles encabeçados por brancos, e a situação fica ainda mais severa em casas lideradas por mulheres negras.
Ultraprocessados como conquista social
Amaral destaca que outro ponto observado na fala dos participantes é a relação do consumo de ultraprocessados com a parte financeira, levando em consideração que esses produtos são geralmente mais baratos que alimentos in natura. Ela acredita que a solução não seria tão simples quanto diminuir os preços dos alimentos naturais, já que o discurso dos entrevistados mostra uma compensação emocional no oferecimento de ultraprocessados para crianças, como se fossem sinal de uma infância feliz.
Barbosa complementa que é compreensível que, para muitas dessas pessoas, o consumo de ultraprocessados seja considerado uma conquista. "Por muito tempo esse produto não era acessível financeiramente, e agora que ele se torna acessível há grupos dizendo que eles fazem mal à saúde, como se fosse uma outra forma de negação para eles", afirma.
Recomendações e propostas do Unicef
Os especialistas concordam que essa percepção dos ultraprocessados como conquista indica que é preciso desmistificar crenças importantes, informando a população de que hoje a formulação dos ultraprocessados são mais nocivos à saúde não só a longo prazo, com mais químicos e aditivos, com educação e comunicação em saúde, a começar pelas escolas.
No relatório, o Unicef reforça a necessidade de:
- Fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados por crianças e adolescentes no Brasil
- Incluir a publicidade infantil, a tributação desses alimentos e a promoção de ambientes escolares saudáveis
- Expandir creches e escolas em tempo integral para ampliar o acesso à alimentação adequada
- Reduzir a sobrecarga das famílias
- Garantir segurança e manutenção de espaços públicos
- Fortalecer a orientação nos serviços de saúde
- Apoiar iniciativas comunitárias, como hortas, feiras locais e projetos esportivos
- Ampliar o uso da rotulagem frontal nos alimentos ultraprocessados
- Investir em comunicação para mudança de comportamento
Barbosa complementa defendendo que é necessário tomar um conjunto de medidas, como manter refrigerantes e bebidas açucaradas no imposto seletivo e avançar para incluir ultraprocessados em geral. Além de ampliar o acesso a alimentos saudáveis em territórios vulneráveis, redes públicas de abastecimento e feiras em comunidades, proibição efetiva de ultraprocessados no ambiente escolar e maior disseminação dos guias alimentares do Ministério da Saúde.
Apesar de afirmar que Brasil apresenta uma evolução positiva em relação à segurança alimentar, ressaltando que o país saiu do mapa da fome da ONU, os especialistas concordam que ainda há muito a ser feito para melhorar a alimentação infantil no país.



