Câncer de pulmão aumenta 20 vezes em São Luís, revela estudo da UFMA
Câncer de pulmão cresce 20 vezes em São Luís, diz pesquisa

Câncer de pulmão aumenta 20 vezes em São Luís, revela estudo da UFMA

Um levantamento realizado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) analisou 2.251 internações e 648 mortes por câncer de pulmão registradas em São Luís entre os anos de 2000 e 2024. A pesquisa, conduzida pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais do curso de Geografia da UFMA, demonstrou que a doença avançou de forma significativa na capital maranhense, com maior ocorrência identificada nos bairros da Vila Embratel, Centro e Turu.

Dados alarmantes e distribuição geográfica

Entre os 24 anos avaliados, 2023 foi o período com mais casos: foram registradas 181 internações, um número aproximadamente 20 vezes maior do que no ano 2000, além de 70 óbitos. Do total de pacientes, cerca de 54% eram homens e 46% mulheres, um cenário que pode estar associado, entre outros fatores, ao comportamento de busca tardia por serviços de saúde entre a população masculina.

Os pesquisadores destacam que o Centro e o Turu concentram mais pessoas adoecidas, enquanto a Vila Embratel registra o maior número de óbitos. A área de adoecimento permaneceu predominantemente urbana, influenciada pela alta densidade populacional nas regiões residenciais. O grande volume de internações na Vila Embratel e no entorno do Distrito Industrial chamou a atenção especial da equipe.

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“Observamos que existe um grande quantitativo de internações e óbitos no bairro da Vila Embratel. Então queremos analisar por que está acontecendo essa incidência, por que ela está com esse grande quantitativo. Estamos com o objetivo de ir às UBS trabalhar diretamente com os moradores que residem nessas regiões, não só na Vila Embratel, mas também no entorno do Distrito Industrial”, explicou Layla Viana, estudante de Geografia da UFMA.

Relatos da comunidade e impacto da poluição

Na comunidade Camboa dos Frades, moradores denunciam há mais de dez anos os impactos da poluição do ar. Eles relatam conviver com aumento de casos de doenças respiratórias, incluindo o câncer de pulmão. “Já perdi várias companheiras de vida devido ao câncer de pulmão. Ainda não fez nem um mês que outra companheira morreu com câncer de pulmão. Foi descoberto de repente e não demorou muito, morreu”, disse a pescadora Maria do Carmo.

Outra moradora, a pescadora Lídia Costa, conta que a poluição atinge até os objetos da casa. “As plantas estão tudo morrendo. Tá complicado viver porque eles não resolvem nada. Se vai reclamar, mandam alguém para amenizar o problema e fica por isso mesmo”, afirmou.

Especialistas confirmam relação com poluição

Segundo o pneumologista Pedro Springer, a exposição prolongada à poluição do ar é um dos principais fatores de risco para o câncer de pulmão. “Cidades ou regiões de muita poluição são fator de risco para qualquer tipo de doença respiratória, em especial o câncer de pulmão”, destacou o especialista.

Durante a gravação da reportagem, apenas uma das seis estações de monitoramento da qualidade do ar de São Luís, em funcionamento na região da Itaqui-Bacanga, apresentava nível considerado bom. O monitoramento é realizado pela Secretaria de Indústria e Comércio do Maranhão.

O advogado especialista em Direito Ambiental, Guilherme Zagalo, critica a falta de medidas efetivas para conter a poluição nas áreas mais afetadas. Segundo ele, não há ações que determinem a suspensão de atividades industriais ou restrinjam práticas ao ar livre em momentos de piora na qualidade do ar.

“Neste lugar em que a qualidade do ar está péssima, não há determinação de suspensão de atividades industriais ou de proibição de atividades físicas ao ar livre em escolas, por exemplo. Então, a população segue sua vida como se estivesse numa condição de normalidade. Mas, na verdade, as pessoas estão sendo expostas a nível muito elevado de poluentes, o que vai, a médio e longo prazo, contribuir para o aumento da mortalidade, a redução da expectativa de vida da população e a piora da qualidade de vida”, destacou o advogado.

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Hospitais com mais registros e potencial para políticas públicas

Em São Luís, o Hospital do Câncer Aldenora Bello e o Hospital de Oncologia do Maranhão Dr. Tarquínio Lopes Filho foram os que mais registraram internações e óbitos por câncer de pulmão no período analisado (2000–2024).

Segundo Marita Ribeiro, doutora em geografia humana e professora da UFMA, o levantamento pode ajudar a orientar políticas públicas de saúde nas áreas mais afetadas. “Serve para a vigilância em saúde ficar alerta sobre como os casos de câncer de pulmão estão acontecendo em São Luís, onde essas pessoas moravam. Eles servem, de fato, como um painel de monitoramento”, afirmou.

Posicionamento dos órgãos

A Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão (Sema) informou que acompanha a qualidade do ar na região da Itaqui-Bacanga, incluindo o entorno da Camboa dos Frades. Disse realizar ações contínuas de fiscalização em empresas licenciadas e que, quando há irregularidades, instaura processos administrativos. A Sema esclareceu que não teve acesso ao estudo mencionado, razão pela qual não é possível realizar manifestação técnica específica sobre sua metodologia ou conclusões.

Já o Centro das Indústrias do Estado do Maranhão declarou que acompanha o debate sobre a qualidade do ar na Grande Ilha e defende o desenvolvimento industrial responsável, com cumprimento da legislação ambiental.