Cirurgião australiano é acusado de remover órgãos de mulheres sem necessidade clínica
Cirurgião remove órgãos de mulheres sem necessidade clínica

Cirurgião australiano enfrenta acusações graves por procedimentos desnecessários

Um cirurgião ginecológico de Melbourne, na Austrália, está no centro de uma polêmica médica de grandes proporções. Simon Gordon é acusado por diversas pacientes e até por colegas médicos de realizar cirurgias invasivas, incluindo a remoção de útero e ovários, em mulheres que apresentavam poucos ou nenhum sintoma de endometriose grave.

Procedimentos questionáveis e consequências dolorosas

Segundo investigação da emissora australiana ABC, várias mulheres foram submetidas ao chamado procedimento 35641, destinado a casos extremos de endometriose, mesmo quando seus exames não indicavam a condição ou mostravam apenas formas leves da doença. Este procedimento custa mais de mil dólares australianos (aproximadamente 5,2 mil reais), valor significativamente superior a cirurgias menos invasivas.

Muitas pacientes relatam sofrer dores intensas durante meses ou anos após as intervenções cirúrgicas, levantando sérias dúvidas sobre a necessidade médica real dos procedimentos realizados pelo especialista.

Reação institucional e aposentadoria súbita

O cirurgião foi afastado do Hospital Privado Epworth, o maior estabelecimento privado do estado de Victoria, em outubro, quando a administração descobriu que o programa investigativo Four Corners estava examinando suas práticas. Gordon optou por se aposentar no fim de semana seguinte ao seu afastamento.

Em sua defesa, o médico negou qualquer irregularidade e afirmou à ABC que nunca realizou cirurgias de endometriose sem estar "absolutamente convencido" dos benefícios para as pacientes. "Durante gerações, a dor sofrida pelas mulheres foi ignorada, minimizada e não tratada", declarou Gordon, acrescentando que sua preocupação era "aliviar a dor e restaurar a qualidade de vida das pacientes".

Investigação de sete meses revela padrão preocupante

A investigação do Four Corners, que durou sete meses, coletou diversas queixas de médicos e pacientes encaminhadas à administração do hospital e aos órgãos reguladores da área médica. Entre os que receberam denúncias sobre Gordon no Epworth estavam três diretores de serviços médicos e uma enfermeira-chefe responsável pela supervisão das enfermeiras do centro cirúrgico.

Especialistas entrevistados pela emissora destacaram que a endometriose grave, conhecida como "endometriose infiltrativa profunda", afeta apenas cerca de 20% das mulheres com a doença. Ginecologistas afirmaram que submetem pacientes ao procedimento 35641 apenas em circunstâncias muito raras e excepcionais.

Reação política e investigação policial

A primeira-ministra de Victoria, Jacinta Allan, manifestou indignação com as alegações e garantiu ter encaminhado as denúncias à polícia. "Remover os órgãos de uma mulher sem necessidade clínica é crime", afirmou em comunicado oficial divulgado na terça-feira. A polícia local confirmou posteriormente que está investigando ativamente as denúncias.

Ao longo dos últimos cinco anos, médicos e pacientes apresentaram diversas queixas sobre os métodos do Dr. Simon Gordon à Agência Reguladora de Profissionais de Saúde da Austrália, indicando um padrão de preocupação que se estende por um período considerável.

Entendendo a endometriose e seus sintomas

A endometriose é uma condição na qual tecido semelhante ao que reveste o útero cresce fora da cavidade uterina. Os focos da doença encontram-se mais frequentemente nos ovários, nas trompas, nos ligamentos que sustentam o útero e no revestimento da cavidade pélvica ou abdominal.

Os principais sintomas incluem:

  • Dor menstrual intensa (dismenorreia)
  • Dor durante relações sexuais (dispareunia)
  • Dor ao evacuar (disquezia)
  • Dor ao urinar (disúria)

No entanto, a condição também pode causar dores abdominais ou torácicas, e cada paciente apresenta sintomas e níveis de dor muito distintos, o que complica o diagnóstico e tratamento adequados.