Câmara de BH aprova internação involuntária de dependentes químicos após votação tensa
BH aprova internação involuntária de dependentes após votação tensa

Câmara de Belo Horizonte aprova polêmico projeto sobre internação de dependentes químicos

A Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou, em segundo turno, o projeto de lei que institui e regulamenta a internação de usuários e dependentes de drogas na rede municipal de saúde. A votação histórica ocorreu durante a reunião ordinária desta quarta-feira (11), em um plenário dividido entre manifestações de grupos favoráveis e contrários à medida.

Votação marcada por tensões e protestos intensos

Da galeria do plenário, movimentos da população em situação de rua, de saúde mental e da luta antimanicomial protestaram veementemente contra o projeto. Simultaneamente, houve manifestações de pessoas que apoiavam a iniciativa. O clima de confronto foi tão intenso que a sessão precisou ser suspensa quatro vezes devido ao barulho e foi prorrogada por duas horas além do horário previsto.

Após discussões e negociações entre os vereadores, a versão editada pela base do Executivo municipal recebeu 29 votos a favor e nove contrários. O projeto, de autoria do vereador Braulio Lara (Novo), havia sido aprovado em primeiro turno no dia 10 de outubro de 2025, ocasião que também registrou debate acalorado no plenário.

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O que estabelece o projeto aprovado

O texto autoriza a internação involuntária de pessoas em situação de rua, ou seja, sem consentimento, em casos de risco à integridade física do paciente ou de terceiros. No entanto, o projeto estabelece que o tratamento de dependentes químicos deve ocorrer, preferencialmente, de forma ambulatorial, admitindo a internação em unidades de saúde ou hospitais gerais apenas quando houver um laudo médico detalhado.

Entre as principais disposições do projeto estão:

  • A internação poderá ser solicitada por familiares ou, na ausência deles, por profissionais da rede pública de saúde ou da assistência social
  • Em caso de alta médica da internação voluntária, ela deve ser feita por meio da solicitação escrita da pessoa ou por algum médico
  • No caso de alta da internação involuntária, a liberação deve ser determinada exclusivamente pela equipe médica responsável

Emendas modificaram texto original

O projeto foi aprovado com emendas significativas que alteraram sua redação original. Uma das principais modificações define que a internação involuntária tenha um prazo máximo de 90 dias e só aconteça depois de esgotadas todas as alternativas de atendimento ambulatorial.

Outra mudança importante suprimiu a possibilidade de solicitação por integrantes de órgãos ligados ao Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas, conforme substitutivo apresentado pela prefeitura.

Posicionamentos divergentes entre vereadores

O autor do projeto, Braulio Lara (Novo), defendeu a medida argumentando que busca facilitar o acesso ao tratamento para pessoas que já não conseguem procurar ajuda por conta própria. "Não é pelo achismo de qualquer um que vai chegar lá e vai fazer uma internação, tudo tem que ser feito no maior rigor do protocolo médico", afirmou o vereador.

Do lado oposto, vereadores contrários à proposta argumentaram que a internação involuntária representa uma violação de direitos humanos. Pedro Patrus (PT) declarou: "Nós iremos dialogar com Poder Executivo, com o prefeito de Belo Horizonte, para que ele vete esse projeto, porque nós entendemos que é inconstitucional, é um projeto que não pode ser feito pelo município, e sim por uma lei federal. Se o prefeito não vetar, nós também iremos ao Ministério Público e à Justiça".

Próximos passos e possíveis desdobramentos

Agora, o projeto segue para redação final antes de ser encaminhado ao prefeito Álvaro Damião (União Brasil), que terá a prerrogativa de decidir pela sanção ou veto total ou parcial da matéria.

Caso o prefeito sancione o projeto, os parlamentares contrários já anunciaram que pretendem acionar a Justiça, alegando inconstitucionalidade da medida. O debate promete continuar nos próximos dias, com possíveis repercussões na política de saúde mental não apenas em Belo Horizonte, mas como referência para outros municípios brasileiros.

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A votação revelou um parlamento profundamente dividido sobre a abordagem mais adequada para o tratamento de dependentes químicos, refletindo tensões mais amplas na sociedade sobre direitos individuais, saúde pública e intervenção estatal em casos de vulnerabilidade social.