Dependência Digital: Centros Médicos no Brasil Já Oferecem Tratamento Especializado
Dependência Digital: Centros Médicos no Brasil Oferecem Tratamento

Dependência Digital: Centros Médicos no Brasil Já Oferecem Tratamento Especializado

A cena se repete em inúmeros lares brasileiros: adolescentes e jovens adultos passam horas intermináveis conectados, alternando entre redes sociais, jogos online e, cada vez mais precocemente, plataformas de apostas virtuais. O tempo de tela, que já era motivo de preocupação para pais e educadores, agora assume contornos mais graves e complexos, configurando um verdadeiro problema de saúde pública.

Especialistas em saúde mental observam um aumento significativo de casos onde o uso de dispositivos eletrônicos deixa de ser um simples hábito e passa a comprometer seriamente o bem-estar psicológico, o desempenho acadêmico e as relações sociais dos indivíduos. Este cenário alarmante começa a mobilizar iniciativas específicas para enfrentar o problema em território nacional.

Programa Especializado em São Paulo

Na capital paulista, o centro de tratamento em saúde mental Elibrè acaba de lançar o Programa Elibrè para Dependências Digitais, voltado especificamente para adolescentes a partir dos 12 anos e jovens adultos que apresentam uso excessivo e prejudicial de telas. A iniciativa surge da constatação clínica de que um número crescente de pessoas adoece devido à sua relação problemática com a tecnologia, enquanto poucos profissionais estão adequadamente preparados para lidar com este tipo específico de dependência comportamental.

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O programa, que terá início em abril de 2026, possui duração de 90 dias e inicia com uma triagem individual minuciosa para compreender o perfil e as necessidades específicas de cada participante. O modelo terapêutico combina estratégias intensivas com acompanhamento contínuo:

  • Fase de imersão: Três dias completamente desconectados, em ambiente natural, em hotel próximo à região metropolitana de São Paulo
  • Acompanhamento multidisciplinar: Retorno à rotina com suporte de equipe especializada
  • Participação familiar: Para menores de idade, os responsáveis estão envolvidos em todas as etapas do processo

À frente do projeto estão os psiquiatras Emilio Tazinaffo e Rodrigo Machado, ambos com extensa experiência clínica no tema e vinculados ao PRO-AMITI, referência latino-americana no estudo das dependências comportamentais.

Iniciativa Universitária de Acesso Gratuito

Paralelamente, no Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), o Ambulatório dos Transtornos do Impulso do PRO-AMITI já oferece tratamento gratuito para adultos que enfrentam dependência tecnológica, incluindo compulsão por internet, videogames ou uso excessivo de celular. O atendimento segue um protocolo estruturado:

  1. Triagem aberta para avaliação inicial
  2. Para pacientes elegíveis, ciclo de 18 sessões de psicoterapia em grupo
  3. Sessões realizadas predominantemente online, com possibilidade de encontros presenciais quando necessário

Quando o Uso Vira Dependência?

É crucial diferenciar uso intenso de tecnologia de transtorno estabelecido. Segundo especialistas, o ponto de virada ocorre quando há perda de controle sobre o comportamento. A dependência se instala quando o indivíduo, mesmo percebendo claros prejuízos em sua vida, não consegue reduzir ou interromper o uso compulsivo.

Na prática clínica, isso se manifesta através de diversos sinais:

  • Noites inteiras dedicadas a jogos ou redes sociais
  • Substituição progressiva de encontros presenciais por interações online
  • Queda acentuada no rendimento escolar ou profissional
  • Mudanças marcantes no humor e comportamento
  • Sofrimento significativo quando o acesso é interrompido

Impactos Amplos na Saúde

As consequências do uso excessivo de telas vão muito além do comportamento observável. De acordo com entidades médicas de referência como a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria, esta exposição prolongada está associada a uma série de problemas de saúde:

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  • Distúrbios do sono e insônia crônica
  • Dores de cabeça frequentes e problemas de visão
  • Desenvolvimento ou agravamento de quadros de ansiedade e depressão
  • Sedentarismo e alimentação inadequada
  • Ganho de peso e questões relacionadas à imagem corporal

Um dado preocupante complementa este cenário: estudo recente do Cetic.br revela que menos de 20% dos sites mais acessados por crianças e adolescentes brasileiros exigem qualquer tipo de verificação de idade durante o cadastro, facilitando o acesso a conteúdos potencialmente inadequados.

A mobilização de centros médicos especializados representa um passo importante no enfrentamento deste desafio contemporâneo, oferecendo esperança para famílias que lidam com as complexidades da dependência digital no século XXI.