O custo mental de dizer 'sim' quando deveríamos dizer 'não'
Custo mental de dizer sim quando deveríamos dizer não

Dizer 'sim' a tudo pode custar caro à sua saúde mental, levando ao esgotamento e até a transtornos como depressão. Entenda os motivos por trás da dificuldade de recusar e descubra como o 'não' é um ato essencial de autocuidado, inteligência emocional e proteção contra a exaustão. Aprenda a estabelecer seus limites!

O preço de dizer 'sim'

'O que custa?' Já se fez essa pergunta ou ela já lhe foi feita por alguém? Muito provavelmente, sim. Pois então, o 'preço' pode ser alto. E também o 'peso' desse posicionamento é muito maior do que se imagina. Caso não se diga 'não' às solicitações abusivas – ou mesmo ao excesso de pedidos razoáveis –, e não nos conscientizarmos do quanto é importante dizer 'não' às propostas recorrentes para se fazer mais e mais coisas, ainda que sejam de nosso interesse, o risco de um esgotamento é real.

Motivos para dizer 'sim' quando queremos dizer 'não'

O medo de desagradar – e, consequentemente, de ser rejeitado – talvez seja o maior motivador de se dizer 'sim' quando, na verdade, deveríamos dizer 'não'. Mas ele não é o único. Outros dignos de nota são:

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  • Crenças de como devemos nos comportar para melhor nos adaptarmos ao mundo como o vemos;
  • Satisfação – sempre transitória – por ajudar;
  • Medo de machucar as pessoas;
  • Receio de parecer egoísta;
  • Baixa autoestima e amor-próprio deficiente;
  • Falta de assertividade e sentimento de culpa.

O pior é que eles não são excludentes; mais de um pode estar por trás do 'sim' que sai no lugar do 'não' que gostaríamos de ter dito.

O impacto do 'sim' fácil

O 'sim' fácil de quem não coloca nem respeita seus limites ameniza o sofrimento decorrente dos motivos citados acima, mas causa outro tipo de sofrimento, mais arrastado e pernicioso, que decorre de um custo energético alto. Não é pouca coisa passar por cima de suas necessidades, negar conflitos internos e levar a vida como se isso não fosse um problema. Fato é que, convencida de que deixar o outro feliz é mais importante que cuidar de si, a pessoa desconsidera suas próprias necessidades e, com o passar do tempo, esgota suas reservas e entra em falência.

O 'não' como proteção

Em contrapartida, o 'não' bem colocado é fator de proteção contra o esgotamento, é um ato de autocuidado, de gestão emocional e de responsabilidade para com o próprio corpo. Em síntese, dizer 'não' não é egoísmo, é autoconhecimento e autorregulação. Não é fraqueza, é inteligência emocional e conexão consigo mesmo. E não é simples recusa, é escolha consciente do que lhe parece melhor.

Consequências para a saúde mental

Pronto. Acabou? Não, infelizmente não. A coisa pode se complicar – e muito. A incapacidade de dizer 'não' pode contribuir para o desenvolvimento de um transtorno mental, mas, que fique claro, não é condição suficiente nem necessária para isso. Os transtornos mentais têm origem multifatorial, ou seja, decorrem de vários fatores para o seu desenvolvimento e a sua manutenção: genéticos, ambientais, interação entre a genética e o meio ambiente, abusos na infância e ainda estresses agudos, crônicos ou recorrentes.

Não é raro escutar de pacientes com depressão e transtorno de pânico, por exemplo, que não saberem dizer nem sustentar um 'não' – e o acúmulo de tarefas, de frustrações e de abusos relacionados à não demarcação clara dos seus limites – colaborou na gênese do problema.

Também alguns casos de transtorno de estresse pós-traumático – principalmente os secundários a episódio de violência doméstica, a acidente trágico e a estupro – ocorrem em contexto de silêncio emocional, de falha em demarcar limites e de dificuldade de se afirmar, de dizer 'basta!' e sustentar um 'não' a tempo, se isso fosse possível, antes da escalada de eventos que culminou no trauma maior.

A boa notícia

A boa notícia é que, da mesma forma que se pode aprender um idioma estrangeiro, independentemente da idade, é perfeitamente possível desenvolver e tornar-se fluente na habilidade de dizer 'não'.

Luiz Alberto Hetem é médico especialista em psiquiatria, doutor em saúde mental e autor do livro 'Diga Não! Estabeleça e defenda seus limites'.

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