Surto de hantavírus em cruzeiro de luxo acende alerta global
Hantavírus em cruzeiro: alerta global renovado

Um cruzeiro de luxo se tornou o epicentro de um surto de hantavírus, um microrganismo letal que colocou autoridades sanitárias globais em estado de alerta. Com 11 casos confirmados e 3 mortes, a embarcação MV Hondius desencadeou uma operação internacional de rastreamento, levantando questões sobre vigilância em viagens e riscos de zoonoses, embora sem ameaça de pandemia.

O início do surto

No dia 1º de abril, cerca de 150 pessoas embarcaram no navio MV Hondius em Ushuaia, no sul da Argentina, com destino ao Arquipélago de Cabo Verde, na África. Com tarifas entre 15 mil e 29 mil euros por pessoa, o cruzeiro, projetado para expedições polares, oferecia uma experiência oposta ao turismo de massa: poucos viajantes, arquitetura minimalista e desembarques em áreas remotas. No entanto, dias após a partida, o roteiro mudou drasticamente.

Os primeiros sinais do surto surgiram em 6 de abril, quando um passageiro holandês de 70 anos começou a apresentar sintomas. Cinco dias depois, ele morreu a bordo, seguido por sua esposa. Entre 24 e 28 de abril, mais dois passageiros manifestaram sinais de infecção, e uma mulher faleceu em 2 de maio. O que parecia um caso isolado se transformou em uma crise acompanhada diariamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

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Resposta internacional

Após os primeiros casos suspeitos e a confirmação dos óbitos, o Hondius ficou dias sem autorização para atracar. Pelo menos cinco nações organizaram missões para repatriar passageiros, combinando evacuações e monitoramento sanitário. Cenas reminiscentes dos primeiros meses da pandemia de covid-19 se repetiram: pessoas deixando o navio em pequenos grupos, usando trajes de proteção e sendo transportadas em ônibus adaptados, com barreiras físicas separando motoristas e viajantes.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou: “Isso não é outra covid-19”. O hantavírus não é um patógeno novo e tem diferenças marcantes em relação ao coronavírus. A família dos hantavírus começou a ser estudada no fim dos anos 1970, após análises de 3 mil casos de febre hemorrágica na Guerra da Coreia. O agente causador foi encontrado em um roedor silvestre na região do Rio Hantan.

Características do hantavírus

Até o início dos anos 1990, acreditava-se que as hantaviroses estavam restritas à Eurásia, mas outro ramo surgiu nas Américas, com casos nos Estados Unidos e no Brasil. Embora o contágio ocorra pelo contato com roedores infectados ou partículas virais suspensas no ar, há diferenças nos sintomas. No Velho Mundo, a manifestação grave causa danos renais. Já no continente americano, o vírus ataca os pulmões, causando a síndrome pulmonar por hantavírus, que foi a responsável pelas mortes no Hondius.

No Brasil, os primeiros casos ocorreram em 1993, em Juquitiba, interior de São Paulo, com três irmãos infectados, dos quais dois morreram. O país já registrou sete casos confirmados em 2026, segundo o Ministério da Saúde, e 35 em 2025.

A cepa Andes

O que chamou a atenção no surto do MV Hondius foi a cepa envolvida: o vírus Andes, a única linhagem de hantavírus capaz de ser transmitida entre humanos. Investigações concluíram que o casal holandês vitimado pela doença levou o vírus ao navio. Eles adquiriram o micróbio durante atividades exploratórias em terra e, devido à proximidade nas cabines e espaços comuns, houve a rara disseminação entre pessoas por vias respiratórias.

Operação de rastreamento

A partir de 2 de maio, quando o episódio foi relatado à OMS, uma força-tarefa internacional foi montada para conduzir o cruzeiro até o ponto de desembarque. Autoridades de Cabo Verde, Reino Unido, Espanha e Holanda retiraram três passageiros com suspeita de infecção ainda no mar. Uma missão militar percorreu quase 10 mil quilômetros a partir do Reino Unido para alcançar um passageiro com sintomas que havia desembarcado em Tristão da Cunha, um dos territórios mais isolados do mundo, com cerca de 200 moradores.

Calcula-se que vinte países tenham recebido pessoas que estiveram no navio. O processo de repatriação inclui quarentena e testes laboratoriais para garantir que não há contaminação.

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Lições para o futuro

O rastreamento minucioso dos contactantes tem como objetivo sufocar qualquer probabilidade de disseminação, ainda que remota. “Não há possibilidade de uma pandemia”, afirma a infectologista Elba Lemos, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz. No entanto, o episódio deixa lições. Com o crescimento do turismo de natureza, a proximidade com animais silvestres é um fator de risco para zoonoses que podem se transformar em infecções humanas. “Os navios e demais estruturas deveriam ter kits de diagnóstico para detectar o máximo de doenças no local”, diz Lemos.

Epidemias antigas, como a peste negra e a gripe espanhola, viajaram por rotas marítimas. Hoje, temos meios de identificá-las e bloqueá-las antes de maiores estragos. Usá-los com rigor é crucial para tornar o mundo um porto mais seguro.