Idoso morre após cirurgia com pinça esquecida em João Pinheiro; CPI é instaurada
Pinça esquecida em cirurgia causa morte de idoso e CPI em MG

A cidade de João Pinheiro, em Minas Gerais, está em alerta após a morte de um idoso de 68 anos, supostamente vítima de um grave erro médico. Manuel Cardoso de Brito faleceu no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, após complicações de uma cirurgia no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares. A família acusa a equipe médica de ter deixado uma pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente, o que teria exigido uma segunda intervenção de emergência.

CPI é instaurada para investigar as circunstâncias da morte

Diante da gravidade das acusações, a Câmara Municipal de João Pinheiro formalizou a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A abertura da comissão foi incluída na pauta de uma reunião extraordinária marcada para segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, às 9h. O presidente da Casa, Ualisson Batista da Silva, assinou a convocação na sexta-feira anterior, dia 9.

O advogado da família, Iuri Evangelista Furtado, afirmou que a instauração da CPI é recebida com esperança pelos familiares. "A família confia que todas as responsabilidades serão apuradas com transparência e seriedade", declarou. A investigação parlamentar se somará ao inquérito já em andamento na Polícia Civil.

Sequência de eventos: da primeira cirurgia ao óbito

De acordo com o relato da família e registros médicos, Manuel foi internado no dia 5 de dezembro de 2025 com uma úlcera gástrica e submetido a uma cirurgia de urgência. Inicialmente, a equipe informou que o procedimento transcorreu normalmente. No entanto, durante a internação, o filho, Samuel Cardoso Rezende de Brito, percebeu que o pai apresentava dificuldade para se alimentar, sinais de dor e sonolência excessiva.

Uma tomografia realizada no dia 11 de dezembro revelou a presença de um corpo estranho – a pinça cirúrgica – dentro do abdômen do paciente. Imediatamente, segundo a família, profissionais levaram Manuel para uma segunda cirurgia, sem aviso prévio ou autorização formal dos responsáveis. "Eles voltaram e buscaram ele pra fazer a cirurgia, aí nessa cirurgia eles não comunicaram e nem deixaram a cuidadora que estava com ele acompanhar", contou Samuel.

Após a segunda intervenção, o idoso foi levado de volta à UTI. Ele permaneceu internado por 13 dias, mas não resistiu, vindo a falecer em 24 de dezembro. A certidão de óbito apontou como causa morte natural por choque séptico e úlcera gástrica perfurada, versão contestada pela família e seu advogado.

Objetivos da Comissão Parlamentar de Inquérito

O Requerimento nº 01/2026, assinado por todos os vereadores, estabelece que a CPI terá as seguintes atribuições:

  • Apurar as circunstâncias do atendimento prestado a Manuel Cardoso de Brito;
  • Verificar a regularidade dos procedimentos médicos e administrativos adotados;
  • Analisar eventuais falhas, omissões ou irregularidades na condução do caso;
  • Apurar responsabilidades no âmbito administrativo, sem prejuízo das esferas civil e penal;
  • Propor medidas corretivas e preventivas para melhorar a segurança dos pacientes.

Prefeitura se pronuncia e família busca justiça

Em nota pública, a Secretaria Municipal de Saúde de João Pinheiro confirmou que houve a identificação e retirada de um corpo estranho durante uma segunda cirurgia. A administração municipal afirmou que a acompanhante foi comunicada da necessidade da reintervenção e que o paciente deu entrada no hospital em estado clínico extremamente debilitado, com quadro infeccioso instalado e histórico de problemas de saúde, como cardiopatia, diabetes e sequelas de AVC.

A nota ainda informa que a direção do hospital adotou providências como a notificação de evento adverso, o reforço de protocolos de segurança e a comunicação à ANVISA. O município se disse solidário à família e à disposição para prestar esclarecimentos.

Para o filho Samuel, no entanto, a dor da perda é irreparável. "Se isso não tivesse acontecido com ele, eu garanto que meu pai tinha passado o Natal e mais um Ano Novo com a gente", lamentou o serralheiro, que construiu pessoalmente a cruz do túmulo do pai. O advogado da família reforça que o objetivo não é vingança, mas verdade, justiça e a proteção de outras vidas. "A família busca que fatos semelhantes jamais se repitam", finalizou Iuri Evangelista Furtado.